Misto-quente foi a melhor sátira que li nos últimos anos
Podem me chamar de sádico, mas me diverti muitíssimo lendo Misto-quente, de Charles Bukowski. Todos os amigos que ao longo dos anos recomendaram - relutei bastante -, diziam que o livro era deprimente, escatológico, “punk”. Até mesmo a pessoa que finalmente conseguiu me convencer, Lília Oliveira, complementou a dica com “um soco no estômago”. Não tive a mesma percepção.
Bukowski é um dos inúmeros escritores maldidos americanos e seus livros são resultado de experiências com consumo excessivo de álcool e drogas, experimentações sexuais, sub-empregos e miséria. São crus, na análise mais simples e justa, sem impor qualquer juízo de valor como “deprimente”.
Acredito que parte do entendimento de dor em Misto-quente vem de uma certa visão romântica da vida que enquadra a miséria (o livro se passa nos anos posteriores à depressão de 1929) e tudo que dela se desdobra como algo feio, essencialmente ruim.
Não consigo ver o texto de Bukowski muito além da sátira, da descrição irônica e sarcástica daquela pobreza do personagem Henry Chinaski e as parcas opções de sua classe social. Em nenhum momento senti na narrativa a presença de um homem sensível, frágil, brigando com a vida e a impotência em mudá-la, mas sim uma espécie de super-homem que olhou todas as coisas de cima e ria, como quem ri de um experimento com insetos, de uma raça se degladiando por nada.
Bukowski está muito mais para Tyler Durden que para o cretino do Proust.
Anotações sobre o livro no Twine.


































