Não se faz mais cinema como antigamente

Não, não é um post saudosista, é mais no sentido do impensável que seria, com nossos bons modos, olhares repreendedores e mania de simplificação, filmar algo como Calígula (Tinto Brass) ou Saló (Pasolini) nos dias de hoje. O cinema, nas últimas duas décadas, se transformou em um amontoado do que os hippies chamariam de caretice. É simplesmente inimaginável, por exemplo, um bom moço como Brad Pitt participar de uma cena de fist fucking como fez Malcolm McDowell em 1979. Ou Angelina Jolie se submeter ao mesmo que Helen Mirren sob a batuta de Brass. Quem nunca viu Calígula, sempre se surpreende como ele foi “moderno”.

Nos últimos meses, tenho visto filmes da década de 50, 60 que deixariam qualquer emo, daqueles que acreditam que o máximo de dualismo existencial de um homem é Peter Paker em Homem-Aranha 3, sinceramente ruborizado e com reais tendências suicidas, não esse arremedo de tristeza dos frangotes de agora.

O filme de hoje foi a gota d’água para este post, na cabeça há uns meses. Não há nada sequer semelhante em matéria de loucura, ousadia em abordar certos temas e elegância, de 1990 para cá, a Reflections in a Golden Eye, de John Huston. Guerra nas Estrelas, Sin City, O Senhor dos Anéis, Irreversível (é, aquele de trás para frente que no começo um cara mata outro com um extintor de incêndio)? Tudo coisa de boiola. Homem de Ferro? Tony Stark é uma mocinha virgem do interior se comparado ao mais sensível dos personagens femininos de Huston.

Vejam como o roteiro é telúrico. Tudo acontece em uma base militar da cavalaria americana:

Alison Langdon: para começar com a mais normalzinha. A senhora Alison teve uma filha, Chatherine, que morreu. Depois de alguns anos, sofre uma crise nervosa e com uma tesoura de jardim corta os próprios mamilos. Tem por fiel escudeiro Anacleto e é casada com o tenente Morris Langdon;

Anacleto: empregado da casa dos Langdons. A melhor definição é filipino gay histérico. É tão politicamente incorreto tentar definí-lo… eu poderia usar baixinho feio alucinado, ou negro descompesado do juízo, mas seria tão politicamente inaceitável quanto a primeira definição e não traçaria um quadro tão fiel;

Tenente Morris Langdon: uma espécie de vagabundo de farda, que acompanha a loucura da mulher (que para os médicos é apenas neurótica), a incapacidade de se aproximar dela para um chamego mais caliente (sabe como é, sem mamilos sem preliminares) e, entre um drinque e outro, durante uns passeios a cavalo muito dos suspeitos, come, sempre naquele matinho gostoso, Leonora Penderton (Elizabeth Taylor). E não, não estou brincando, Elizabeth Taylor dá geral no matinho. Mó mixuruca a bunda dela;

Leonora Penderton: é uma dondoca beberrona e falastrona, casada com o Major Weldon Penderton, a quem chifra com Morris Langdon. Tem uma fixação incomum por Firebird, cavalo por quem nutre mais carinho que pelo próprio marido ou amante. Frase do filme: “querido, você já foi colocado na coleira, arrastado para a rua e surrado por uma mulher nua?” Cara, gamei nela. Só essa frase coloca no bolso todos os 9 1/2 Semanas de Amor, com Kim Basinger, sem Kim Basinger, com quinze Kim Basingers e ainda leva de quebra a dobrada de perna da Sharon Stone em Instinto Selvagem. Leonora, além de ser um problema para o marido, desperta o interesse do cabo Williams.

L. G Williams: interpretado por Robert Forster, o cabo, quando criança, soube através de sua mãe que mulheres transmitiam doenças incuráveis, nunca tocou uma. Mas nada que o impedisse de desenvolver uma fixação por Leonora a ponto de entrar todos os dias em seu quarto, à noite, para cheirar suas roupas íntimas enquanto ela dorme. O cara é ninja. Habilitade específica: domar cavalos… nu.

Weldon Penderton: é claro que o personagem de Marlon Brando tinha que ser o mais… vejamos o quê. O professor de táticas de guerra é narcisista (ele malha e passa creminho no rosto), incapaz de controlar o que acontece em casa ou na base, sofre com a dedicação da mulher ao cavalo Firebird e por ela cavalgar (não biblicamente) melhor do que ele. Sério, a disputa não é por causa do chifre, mas pela habilidade em cima de um cavalo, é por quem tem mais poder. Não sabe que é corno, sequer desconfia. Na verdade, ele não quer nem saber. Vive na dúvida de como se tornar um líder militar e entre conjecturas sobre os métodos usados por generais como MacArthur ou Patton para se mostrarem mais fortes que os demais. A inimizade com o cavalo o leva à beira da morte, quando é salvo pelo cabo Williams, devidamente peladão, do jeitinho que a senhora Willians o colocou no mundo. Preciso dizer que Penderton apaixona-se pelo cabo?

Agora misture esse show de horrores, de neuras, culpas, taras e desejos contidos, bata e coloque nas mãos de um exímio contator de histórias como foi John Huston, cada ator melhor que o outro e você tem um filme impossível de imaginar Brad Pitt e Angelina Jolie contracenando, seria péssimo para a imagem deles de embaixadores de pelo menos metade da ONU. Não cairia bem Jolie dando no matinho enquanto Pitt olha para a bunda do cabo, nem pensar.

Não é que o cinema esteja pior, ele só está mais chato mesmo. Tecnicamente é até besteira comparar, atualmente está indubtavelmente melhor. Mas falta coragem. E lembrem, Huston em 1967, ano do filme, não era um diretor alternativo, independente, um cabeça que vinha de algum movimento estético obscuro francês, era um blockbuster americano, já tinha feito um James Bond em um Casino Royale torto escrito pelo próprio Ian Fleming e interpretado por Peter Sellers e David Niven. Já tinha rodado Falcão Maltês em 1941, A Lista de Adrian Messenger, Raízes do Mal, Moby Dick e mais uma boa dezena de sucessos. Ou seja, problemas de pessoas reais como traição, luta pelo poder, homossexualismo, divórcio, sonhos e desejos levados às últimas conseqüências e sem qualquer maquiagem alegórica, tudo o que faz da gente gente, era visto na sessão econômica de quarta-feira por todo mundo.

Quais são os sucessos de hoje? Produtos de cálculos matemáticos inseridos em um computador. A galera vai ao delírio quando Tony Stark liga seu aparelinho que faz blip, depois squeeze, pisca duas vezes e liga o retropropulsor subatômico. Algo extrememante infantil. Tem nego de 30 anos que ainda não superou a fase oral. Resultado? É mais fácil encontrar alguém vestindo uma camisa de Homem Aranha ou do Superman que um cabra que queira (ou não) falar sobre cavalos com uma mulher (enfatizo, mulher, não menina, gatinha, moçoila, não esse povo desnutrido mentalmente que gosta de Hello Kitty) no sacrossanto recesso de um motel perto do cinema logo depois, ou antes, ou quem sabe durante o filme. Mané Gandalf. Nesse aspecto o mulherio se divertia mais no tempo dos nossos pais. Agora, coitadas, elas têm que aturar marmanjo teorizando sobre a Sociedade do Anel e artigos indefinidos em klingon, tenha a santa paciência.

Mas eu passei de uma coisa para outra nada a ver rapidinho. Bom, pois é, acho que o cinema ficou medroso e tal, queria ver mais roteiros e diretores rompendo com essa do politicamente correto, tá um saco isso. Quero ver Nicole Kidman num pornô, seria uma boa maneira de compensar esses últimos 20 anos de filmes infantis que vi.


P.S.: não vi o Homem de Ferro, vou ver e tenho certeza que vou gostar como gostei de Sin City, dos dois primeiros Aranhas e do Senhor do Anéis, mas cinema, como toda arte, tem momentos absolutos e momentos comparativos. Este foi um momento comparativo. Huston É melhor que Sam Raimi da mesma forma que Picasso é melhor que eu na pintura. E na mesma proporção.

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