Quando o jornalismo se comporta como a máfia

AaaaaaaahhhhO conceito de máfia está estreitamente ligado a territorialidade, aos donos do quarteirão ou da vizinhança, e se estende para áreas de negócios, como a jogatina, a prostituição ou o tráfico de drogas. Quem já viu o Poderoso Chefão sabe como é, a famiglia Corleone não lidava com drogas, mas detinha o poder do jogo e das casas noturnas em Las Vegas.

Como em toda boa máfia, qualquer novato com desejos de ganhar uns trocados deve respeito aos chefes. Para operar nos arredores é preciso beijar a mão do Don sob o risco de bater as botas violentamente em um gueto escuro enquanto o chefão aprecia a encenação de Il Pagliacci.

Jornalistas muitas vezes agem da mesma forma. Vejam a última da “cena” cultural cearense. Maria Rita fez show no sábado, 10, em Fortaleza, e decidiu, sabe-se lá porque, não falar com a imprensa. Vai ver estava de lua, com escafubilose no dedão do pé, ziquizira nos ânimos, mas sua recusa gerou polvorosa nos bastidores jornalísticos. Só não ouvi chamarem a moça de moça, mas de besta e estrela para cima e adjetivos mil houve a dar na canela e no bom senso.

O que teria Maria Rita a dizer que, ao não fazê-lo, causaria sua morte instantânea nas agendas culturais da cidade, como cogitou Emílio Moreno publicamente e outros em papinhos de bar? Falar sobre como Dilma Russef se saiu bem no depoimento no Senado? E se assim fosse, o que ela teria a acrescentar sobre o assunto que um vendedor de esquina não? Falar sobre o show? Mas seu show fala por si, sua obra está lá para ser apreciada, só cabe aos críticos avaliarem se bom ou ruim. Das suas influências musicais para ficar claro, de novo, que ela nada mais é que uma médium que incorpora o espírito da mãe Elis Regina? Dar mais uma das inúmeras e sempre mesmas entrevistas que devem deixar qualquer pessoa com a paciência um pouco mais curta de saco cheio?

Não, na verdade é só prestar respeito aos capos locais, donos do poder de calar ou fazer cantar que, tal qual Don Corleone fez com Johnny Fontane, são capazes de ligar ou desligar uma carreira.

Sei, claro, que o jornalismo é repetitivo, é muitas vezes prática parecida com a do inquérito policial, já que fazer sempre as mesmas perguntas só pode ser um pacto secreto entre jornalistas para testar até onde vai a convicção de uma personalidade, mas daí a boicotar informação de serviço, sentir-se pessoalmente atingindo ou fazer julgamentos mais duros que o que se faria a um Nardoni, já é caminho diverso. Mas, graças a São Francisco de Sales, entre mortos e feridos, Elis continua a incorporar na filha e a responsabilidade de informar foi mais levada em conta que os brios feridos.
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Creative Commons License photo credit: tnarik

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