Erros e acertos de Rafael Rodrigues
Por Leonardo Fontes no dia 18 Abr, 2008 em Blogs, Destaque, Jornalismo
Rafael Rodrigues, em texto para o belo especial do Digestivo Cultural sobre blogueiros e jornalistas, levantou algumas bolas dentre as quais há as que merecem chutes, outras carinho. No apanhado, concordo mais que discordo de Rafael, mesmo que seu texto tenha um bafio autoritário.
Para os que têm curiosidade sobre o debate entre mídias tradicionais e novas mídias de uma perspectiva mais… produtiva, sugiro três textos da série: Jornalismo em tempos instáveis, de Luiz Rebinski Junior, Blog precisa ser jornalismo?, de Rafael Fernandes, e Jornalistossaurus x Monkey Bloggers, de Diogo Salles. Por cá, fico com Rafael Rodrigues, até porque volto a um tema recorrente nas últimas semanas: os donos da verdade, ou melhor, da bola.
No seu Jovens blogueiros, envelheçam, Rodrigues de imediato proíbe o impensável, questionar:
A blogosfera brasileira é, abrindo poucas exceções, irrelevante. Não adianta espernear, tentar argumentar. Esta é a realidade: a grande maioria dos blogs brasileiros não tem importância nenhuma. São bobos, cheios de conteúdo descartável e, o que é pior, muito mal escritos.
Qualquer idéia defendida a partir desse requisito de leitor ideal - que não argumente ou esperneie - é verdade inquestionável, blindada contra qualquer argumento e pensamento contrários. Seguindo o mesmo caminho, ou seja, o de vetar o invetável, defendo que sejam proibidos os textos que proíbam leituras dissidentes, quero bloquear esse círculo vicioso do dono da verdade que escreve para ninguém, já que não há ninguém que não pense por si. Ou talvez sim, quem sabe os leitores do que é considerado relevante por Rafael, relevante exatamente por ninguém questionar? Não sei, mistério.
Mas o que vemos entre os 20 primeiros colocados são blogs de humor e de cultura pop ou trash, todos descartáveis. Dentro das exceções, de conteúdo relevante, estão alguns blogs sobre informática e tecnologia, e um coletivo.
O que é um conteúdo relevante? Pelo contexto entendo que Luís Fernando Veríssimo, que faz humor, não é relevante, como Casseta e Planeta ou Glauber Rocha, dois clássicos do trash - fãs do Glauber, por favor, reclamações aqui -, também não. Mas falar sobre tecnologia e informática, com informações pinçadas de um molho de fontes terceiras digeridas e regurgitadas, como é o caso de grande parte dos blogs de tecnologia no Brasil, é relevante?
Mas o ponto é, relevância é meramente uma questão de gosto a ponto de se excluir da lista de importância determinados conteúdos, política é mais que saúde, polícia é mais que economia porque EU assim o quero, ou é a qualidade do que é feito o que importa? Para Rafael, existem conteúdos menores. E isso é muito errado, quer saber por quê? Porque eu acho, pombas.
Blogueiros brasileiros não fazem notícia, não apuram dados. Os que fazem isso são poucos. E, no meio desses poucos, estão muitos jornalistas com anos e anos de estrada. Trocando em miúdos: o que há de conteúdo relevante nos blogs brasileiros é produzido, em grande parte, por jornalistas.
A maldita relevância, de novo. Aparentemente para Rafael apenas a notícia é relevante, mas a poesia, os (raros) experimentos literários, a cultura pop, a música, o humor, a publicidade, até mesmo o trash, enfim, todas as expressões humanas que felizmente estão fora da seara do jornalismo não podem ser descartadas como irrelevantes em nome de uma importância exagerada que se dá a uma técnica, importância esta que é defendida mais ferrenhamente apenas por uma irrisória parcela da população que, por acaso, ganha o sustento dela. A relação entre jornalismo e relevância, em todo esse debate blogueiros X jornalistas, só existe entre jornalistas e blogueiros. Saia desse universo e, para metade da humanidade, relevante mesmo é o Orkut, que nem é blog nem mídia tradicional.
Também não podemos dizer que os jornalistas, todos eles, são corretos, íntegros e responsáveis. Basta ver a quantidade de matérias parciais e pessoais publicadas todos os dias, todas as semanas. Muito do que falta à maioria dos blogueiros, falta também a um considerável número de jornalistas: critério, honestidade e bom senso, para ser bastante breve e superficial. E maturidade, é claro, para aceitar as críticas e aprender com elas.
Aqui está o motivo de eu concordar mais que discordar de Rafael. É que ele começou mal, mas finalizou bem. Sem a generalização banal do “blogs X jornal”, guerra inexistente mas que às vezes se confunde no autoritarismo de ambos os lados - sem falar nos egos -, os blogs têm ou deveriam ter um papel que “nunca na história desse país” existiu, que é de ser contraponto a meios com interesses nem sempre nobres, à tradição muitas vezes viciada do noticiário, que é tido como verdade absoluta e relevância geral pela maioria de uma população acostumada a monólogos.
(Nesse aspecto, ler blogs não é apenas uma evolução de mídia, mas de cultura dos leitores, que abandonam fontes únicas para entrar na multiplicidade.)
A importância dos blogs é de voz, de mais vozes, de ruído mesmo que eventualmente só de confusão, de um caos de onde pode sair uma real democracia ou, na melhor das hipóteses, uma anarquia. E aqui fecho com o texto, não vejo a blogosfera brasileira debater mais maduramente essas questões, se pronunciar mesmo que entre um grupo pequeno e pouco relevante sobre saídas de conteúdo que possam ir além dos níqueis de Adsense no final do mês. São muitos os candidatos a milionário, mas são poucas as propostas originais e sérias que levem, quem sabe, why not, a polpudas contas bancárias e real diversidade de visões do mundo.
Só vejo muito é policiamento do Twitter dos outros - que é refresco.
Esperneei um bocado, me processe Rafael.
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P.S.: alguém, por favor, faça um layout novo para o Digestivo Cultural, imediatamente.
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photo credit: f_mafra





