Idéias bestas que o cinema americano dá às mulheres
Por Leonardo Fontes no dia 14 Abr, 2008 em Cinema, Destaque, Humor
O cinema, venha do onde vier, cria sonhos, alguns filmes chegam mesmo a criar verdadeiros delírios, caso de Calígula ou Noite do Mortos Vivos. Brasileiro, argentino ou hindu, o cinema é uma máquina de produzir mundos alternativos, mas especificamente o americano dá cada idéia para as mulheres que fico pensando se será assim mesmo por lá. Pior: tem aquelas, que por aqui, adorariam viver nesses universos paralelos do cinema.
As chamadas comédias românticas, em particular, podia muito bem ser proibidas para casais com um pouco mais de história. Tem mais de dois anos de relacionamento? Não, não pode ver Notting Hill, tome Braddock: Missing in Action III ou, melhor, Eu Sei Quem Vocês Comeram no Verão Passado e Sai Branco, Cacique Também quer Dar Metida (referências do Desciclopédia).
Dentre as idéias mais abomináveis, eu listo:
O próprio casal pintar o apartamento: não, não tem nada de romântico. É tão lindo quanto as luas de Endor, é legal, mas é efeito especial. A sujeira é tão grande quanto a deixada por profissionais, com a diferença que eles são pagos para limpar depois, você, no máximo, gastou uma nota e suou feito um escravo. E não há romantismo que resista quando, depois da trabalheira, todo o esforço não sobrevive a uma olhada mais atenta que flagre bolhas monstruosas em uma superfície que supostamente devia ser plana, nenhuma uniformidade, cores incompatíveis com qualquer lar civilizado e despesas três vezes superiores a de um trabalho de alguém da área.
Peça a mão dela em público e seja aplaudido: acontece nos filmes geralmente depois de todas as peripécias, idas e vindas, decepções e reconquistas, até que ele, correndo atrás dela em pleno metrô, no frio de Nova York, naquele cenário de primeiro mundo com gente bem nutrida, cada louro e louro criado com Toddynho a infância inteira, sem uma poerinha sequer no chão, mendigos vestidos de Hugo Boss e um surround sound 5.1 de deixar qualquer cristão surdo, pede ela em casamento a plenos pulmões: “Elizabeth, marry me, Elizabeth!! I LOVE YOU, Elizabeth”. Quando se faz um silêncio profundo, tão monstruoso que o mundo inteiro parece ter parado, ela, em um suspiro misto de alívio e amor (se for boa atriz coloca aí um tiquinho de choro), diz: “Yees, Redcliff, yeeees, yes, yes, i will marry you, my dear Redcliff”. E chovem aplausos de todos os cantos do metrô, hippies hurras alucinados no momento em que um beijo sela a união e a câmera desvia o olhar para uma senhora lá no fundo, quieta e com ar de pessoa sábia, que deixa cair uma nívea lágrima de alegria pelo amor do próximo.
Aqui, o sujeito, provavelmente batizado pelos pais com um indefectível Maicol, vai fazer esse pedido no terminal do Papicu, no percurso Cidade 2000-Centro, à sua amada (Josyvânia Katiline), no meio de dezenas de vendedores de capinha e carregador automotivo para celular, água mineral, cerveja quente, cartão de orelhão e, se duvidar, borracha para panela de pressão, no burburinho de um povo que sai de casa tudo morrendo de fome às 5 horas da matina, e volta, ainda com fome, à 22, que pega cinco conduções e que ganha, quando muito se o patrão tiver a decência de ser direito, um salário mínimo. É triste, mas na melhor das hipóteses ele leva é uma vaia por ser besta e querer casar. Aí vem o cinema colocar caraminholas na cabeça da coitada da Katiline. Gente, é até uma questão de humanidade não permitir esse tipo de filme. Katilile, bichinha, precisa ver é Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro que é para não ter qualquer ilusão, seja com o amor romântico, seja com o cinema.
Mulheres: vocês não vão casar com um Hugh Grant; homens: nada de Julia Roberts: no caso dos homens nem acho que seja grande perda, Julia Roberts e seu eterno tipo feminino “pinto molhado” ou musa tipicamente norte-americana não é nenhuma Nicole Kidman, que por sua vez já é de raça. Mas o Hugh Grant, convenhamos, é até um sujeito bem aparentado, tem seu humor e aquele sotaque britânico que deixa até domador de jumenta, que é bicho bruto, com ar de lorde. É uma falsa idéia, das mais perigosas, que os maridos/namorados/casos terão esse cabedal de eterno bom humor, educação suprema e dedicação total em pensar nas mais ridículas formas de demonstrar seu amor. Os caras estão preocupados mesmo é com dívidas, têm terror de perder o emprego, no máximo moram em um apartamentinho de dois quartos, suam para colocar gás natural no Monza 89; quando for de casar, vão passar 30 anos pagando por uma casinha em um subúrbio, cinco em um consórcio de um Celta básico, viverão com a conta bancária no vermelho para, no final, conseguirem uma fabulosa aposentadoria insuficiente para arcar com o remédio da pressão alta. Nesse cenário, quem consegue pensar em flores, é romântico até demais, quase que um esquizofrênico de tão distante da realidade. Enquanto isso, Hugh Grant passeia com Julia Roberts de Porsche.
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P.S.: então, no final do post até que fiquei bem deprimido, acho que vou ver Harry e Sally hoje. Um clássico para terminar:
Embora Billy Cristal seja um pouco demais além da conta de qualquer gosto minimamente duvidoso.
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photo credit: CJ Sorg
photo credit: Anthony S Jennings






