Usabilidade Web: Adriano Macedo, do TK82C à TV Digital (parte 1)
Por Leonardo Fontes no dia 22 Jan, 2008 em Destaque, Entrevistas, Fortaleza, Internet, Tecnologia, Usabilidade Web, Áudio
Na segunda entrevista sobre Usabilidade Web, conversei com Adriano Macedo, designer, sócio-diretor da Digital Design - uma das poucas empresas em Fortaleza especializadas no mercado de internet - e autor do blog Fortaleza Nua e Crua.
Profissionalmente na estrada desde 1995, quando fundou a então Velox (segundo ele, sem nenhuma relação com a marca da Oi), Adriano começou a brincar com computadores em 1983 com um TK82C. Para aqueles que desejam saber mais sobre sua trajetória pessoal, a revista eletrônica Autêntica Vida - projeto do próprio - tem mais informações.
Como a entrevista ficou por demais longa, 56 minutos, decidi dividí-la em duas partes. A primeira, você acompanha a seguir.
Download Entrevista com Adriano Macedo, primeira parte
Vou começar a conversar agora com Adriano Macedo, designer, sócio-diretor da empresa especializada em web em Fortaleza, Digital Design, criada em 1995 com o nome de Velox, o que me deixa com uma pulga atrás da orelha, será que vocês não influenciaram aí um pouquinho a Telemar, agora chamada Oi?
Adriano Macedo - Inicialmente, Leonardo, é um prazer estar aqui conversando com você e agradecer inicialmente pelo convite que me foi feito. Na verdade não, a Telemar sequer existia, existia a Teleceará, que era estatal, então deve ter sido realmente uma grande coincidência. A gente começou a usar esse nome Velox, mas no finalzinho de 95, um pouquinho depois, em 96, a gente estava abandonando e trabalhando com outro nome, que é a Digital Design, que muita gente já começou a conhecer também como DGD. Uma curiosidade, uma peculiaridade da época, quando se começava a criar os primeiros nomes de domínio, eles era bem curtinhos. Então era UOL, Bol, eram sempre coisas fáceis para as pessoas poderem gravar, porque até o próprio recurso de você ter no bookmark, nos favoritos, era algo até bem primitivo, então você trabalhava com nomes curtos para favorecer isso aí. A gente escolheu DGD, que simboliza a Digital Design. Mas a questão do Velox é só uma coincidência.
Mas até hoje é uma boa opção você ter um nomezinho curto…
Adriano Macedo - Ainda hoje sim.
E mais difícil de encontrar um nome curto, mas é sempre uma boa opção.
Adriano Macedo - Eu vi um bem curtinho hoje que era CI.
G1.
Adriano Macedo - G1, é outro muito bom achado. Bem interessante também. Muito interessante como as pessoas conseguem ainda fazer esse garimpo e descolar esses nomes.
A primeira pergunta é tanto para o desenvolvedor quanto para o usuário de internet. Tu começaste a trabalhar com internet lá por 95. Com computador, pelo que sei, é mais antigo ainda. Desde 95 - quando você começou a trabalhar mais profissionalmente e usar internet de forma mais assídua - até hoje, até 2008, quais foram as mudanças fundamentais? Tanto para quem está por trás dos sites, quer dizer, tanto para o desenvolver, quanto para ti como usuário final?
Adriano Macedo - Basicamente, a questão da velocidade foi brutal. No mercado em si, a mudança foi brutal. Pensar que há trinta anos atrás, quando eu tinha sete anos de idade, o computador pessoal estava nascendo, então, em trinta anos, você tem o que você tem hoje, foi algo… brutal. Quando eu tinha mais ou menos 12 anos, a gente ia ali na Mesbla, que era uma loja onde fica, no Iguatemi, a Riachuelo…
Sei demais, o meu primeiro computador eu comprei lá também.
Adriano Macedo - Comprou lá também? Comprei o meu também lá, que era um TK82C.
No caso, eu comprei um MSX.
Adriano Macedo - Você já foi mais evoluído. O meu tinha 2k de memória RAM. Dois k, não é 2 megas. Você não conseguia imaginar o que você fazia com aquilo ali, um gravador K7, ligado em um aparelho de televisão.
Aquilo era um tormento, era um tormento…
Adriano Macedo - Você carregava um programa, demorava meia hora para carregar. Um programinha básico. Hoje, tem um cliente meu, ligou para mim: “Adriano, tô com um problema, dá um pulinho aqui, sei que não é sua área, mas dá um pulinho aqui para dar uma olhada no meu computador”. Fui lá olhar: “ó, tô tentando abrir o Word aqui mas tá abrindo com sete segundos, tá muito lento”. Sete segundos é lento? Contei para ele a história de como era antigamente, você levava meia hora para executar um programa. Hoje as pessoas estão extremamente imediatistas, então essa questão de velocidade, para a gente que trabalha e para a gente que usa, é algo brutal. Um amigo meu que está lá nos Estados Unidos diz que a conexão mais leve que ele conseguiu foi de quatro megabits. Fortaleza são dois, se não me engano o pessoal da Net está trabalhando com dois megas.
Será que são dois mesmo?
Adriano Macedo - Eu não sei, não cheguei a testar, mas foi um bom avanço. Você chega em Nova York, são quatro megas, que é o mínimo que o pessoal está conseguindo lá, abaixo disso não existe. Então, é de uma velocidade brutal. Para o lado do desenvolvedor, as ferramentas deram um pulo também impressionante. Eu lembro quando fui registrar minha primeira versão do Dreamweaver… na verdade não, eu minto… na verdade, o primeiro programinha que eu tive foi de uma empresa australiana, a Sausage Software, era o HotDog.
Ih, lembro demais dele. Um monstro.
Adriano Macedo - Era muito bacana, você já conseguia fazer algumas edições, ele já dava um preview de como o site ia sair. Uma das primeiras compras que fiz na internet com cartão de crédito foi para comprar esse programa, depois adquiri o Dreamweaver e outros programas da então Macromedia, agora adquirida pela Adobe. Mas mudou muito isso daí. Hoje em dia… eu ainda fico muito fascinado com o pessoal que gosta de editar o código na unha, como a gente chama. Então o camarada abre o Editpad dele e vai dando uma olhada… “não, não vou usar, vou usar uma versão modificada do Notepad, vou fazer as correções”… eu ainda admiro muito esse pessoal. Hoje em dia, por conta do fluxo de negócios que a gente acaba tendo, eu não tenho mais como usar isso daí. Na verdade mesmo, já faz um tempinho que eu não edito código. Tem todo um pessoal que trabalha com isso para mim. Eu me concentro mais na concepção do site, na criação mesmo, na idéia do site em si. Na arquitetura. E até isso mudou, porque até você ter uma idéia e conseguir executar um programa em um computador para demonstrar… às vezes a idéia se modifica só nesse lag que acontece. Hoje em dia você aciona os programas com uma velocidade impressionante. Então mudou isso, o que eu cito mais é a questão da velocidade, tanto para quem usa quanto para quem desenvolve.
Velocidade e a evolução do software.
Adriano Macedo - Com certeza. É algo absurdo. Se você pegar qualquer outra mídia, não consegue ter esse desenvolvimento como aconteceu para internet, tanto para o usuário quanto para quem trabalha nela.
Quais são hoje os principais problemas de usabilidade que você enfrenta quando usa a internet? Não estou falando do desenvolvedor, mas do usuário de internet, o que você acha mais chato e ineficiente?
Adriano Macedo - O que eu acho mais chato ainda, é incrível, mas o camarada fazer menu com aqueles barulhinhos chatos para caramba. Você tem lá, menu, aí… vamos inventar assim: “Quem somos nós?”, “Conheça nossos produtos”, “Veja nossa localização” e “Entre em contato”. Cada mouse que passa faz “toin”, “toin”, “toin”… Cara, isso daí é para ser abolido, tanto como aquela tag bem antiga que era o “blink”. Ela ficava piscando, o pessoal gostava! Ou então aqueles java applets que rodavam e travavam o browser, pelo amor de Deus.
Teve uma época que site sem uma coisa girando ou animada não era site.
Adriano Macedo - Não existia. Mas até hoje eu me deparo com esses menus. O pessoal até brinca, Adriano vou selecionar para ti sites que têm menu… Já comecei a colecionar uns também aqui. Pelo amor de Deus, isso é de uma chatice incomensurável, porque muita gente navega na internet ouvindo seu CD, ouvindo mp3 ou até mesmo conversando com outras pessoas, aí de repente entra em um site e já começa a tocar uma música de fundo que você não pediu. Ou através do menuzinho lá tem outro barulho que vai interromper junto com a música de fundo. Pelo amor de Deus, cara. Você não tem como obrigar o cliente, ou o usuário do cliente, a seguir esse tipo de coisa.
A ouvir a sua preferência musical.
Adriano Macedo - Exatamente, você pode pelo menos avisar que esse site… você coloca um ícone lá que se ele tocar… vai indicar que vai ter uma música, tudo bem, eu estou sendo avisado, mas começar tocando logo, de início, ou então você ser surpreendido por esses menus terríveis que a turma ainda gosta de fazer… Outra coisa que me irrita também muito, é quando o pessoal começou a cunhar esses termos como Web 2.0. Eu tava almoçando aqui no Del Paseo, pertinho, aí lá tinha “não, a onda agora em 2008 é a Web 3.0″. Pera lá. Na verdade, a web só cresceu com o passar do tempo. Você querer trabalhar nomes para isso, é Web 2.0, é Web 3.0, o que você está fazendo é Web 1.0? É muito difícil você dizer onde começa um e termina o outro.
A diferença entre Web 2.0 e a Web 1.0 é o beta e o em construção.
Adriano Macedo - Boa definição.
Se você coloca um gif animado com um “em construção”, ela é 1.0. Se é beta…
Adriano Macedo - O pessoal do Google adora colocar os betas…
Não só o Google, quase todos esses sites que nascem hoje em dia com a tarja Web 2.0 estão sempre e eternamente em fase beta.
Adriano Macedo - Tinha até feito um raciocínio bem anterior a essa nossa conversa, que na verdade minha definição de Web 2.0 é tudo aquilo que você consegue compartilhar.
Essa é a definição mais séria, a portabilidade da informação.
Adriano Macedo - É você compartilhar a informação com tantos outros usuários… Mas aí eu comecei a me lembrar um pouquinho do passado. Em 96 a gente já tinha recurso de fórum de discussão, lista de discussão. Eu tinha um mural em que eu escrevia… a gente chamava na época de “Muro da Inforserv”, que era o provedor onde eu trabalha como operador. Então a gente tinha um mural, todo feito em CGI, que era a linguagem que a gente tinha na época, em que você colocava lá… “fulando de tal passou por aqui” e deixava online. Quando a gente voltava do almoço, já estava lá “eu passei”, “eu também passei”, tá entendendo? As pessoas que acessaram, deixavam as mensagens lá e outras pessoas viam, e as pessoas começaram a marcar encontro no muro. A gente às vezes tinha que apagar, porque não tinha espaço para armazenar tudo aquilo.
Mas era uma questão de espaço ou porque o muro de repente se transformava em porta de banheiro?
Adriano Macedo - Acontecia os dois, na verdade acontecia as duas coisas. Ficava muito nessa parte restrita, mas já existia esse compartilhamento. As pessoas já compartilhavam essa informação e ninguém chamava de Web 2.0. Era web. Eu não gosto de chamar, para mim é web, ela passou evoluindo como uma tendência natural das coisas. Por exemplo, digamos que o governo federal vá fazer um upgrade na BR-116.
BR-116 2.0.
Adriano Macedo - Ninguém vai chamar assim, ela vai continuar se chamando BR-116. Ah, bacana, tem uma nova sinalização, ou então ela tem agora novos guardrails nas laterais, mas ela é BR-116. Só porque ela passou por uma atualização ou porque a forma como ela está sendo encarada é outra, ela não deixa de ser uma rodovia. Então eu encaro a web do mesmo jeito, ela continua a mesma web feita para compartilhar informação. Agora, tudo bem, a forma como você gerencia isso pode ter mudado e pode ter avançado, o que é natural para mim. Mas, colocar nomes, taxar com nomes, eu nunca fui muito…
Voltar um pouquinho ao tema. Vamos falar das dificuldades, você falou aí do menu que apita, vamos dizer assim, a música de fundo, o que mais? Vou citar um exemplo pessoal, de jornalista. O que me irrita muito, por exemplo, - e isso está naquelas regras do Nielsen com as quais concordo plenamente -, o fato de alguns sites - isso se encontra demais em blogs, sou um viciado em blog e encontro demais em blogs - é a falta de um “sobre”. Quem está por trás daquilo, quem é o cara, como eu entro em contato com ele? Isso para mim é terrível como jornalista porque não adianta só eu saber o endereço, eu preciso conversar com ele, às vezes, para saber se ele é uma pessoa real, se não é um pseudônimo… ter uma coisa a mais, além daquela virtualidade, ter um contato maior com a realidade.
Adriano Macedo - Eu concordo. Apesar de eu achar o Nielsen muitas vezes muito chato, um cara muito cri-cri nas observações que ele faz. O site dele, o Use It, é do mesmo jeito desde que a web surgiu. É aquilo lá. Aí, é aquela coisa para se pensar, se eu chegar para um cliente e dizer que as regras do Nielsen são bacanas, vamos aplicá-las, o camarada não me contrata. Ele olha para aquilo lá e é muito ultrapassado para ele. A forma como ele dispõe os textos, a forma como ele alinha os textos, a forma como ele lida com imagens ou as recomendações… eu acho execessiva a preocupação dele. Não estou desmerecendo, mas acho às vezes que ele pega… tem um excesso de preciosismo na coisa.
A usabilidade vai depender mais do cliente, do que o cliente deseja, ou mais do que o leitor precisa? Talvez pareça uma pergunta filosófica demais, mas a gente vai cair naquela coisa, o que o cliente deseja nem sempre é o melhor para leitor e isso pode afetar o objetivo do cliente. Como é no teu caso, na tua empresa, como é que vocês fazem essa relação?
Adriano Macedo - Primeiro eu prezo muito em conhecer o cliente e o negócio dele. Então eu não me restrinjo a passar horas e horas conversando com ele e visitando a empresa dele. Eu acho isso imprecindível. Se você chegar e “ah, Adriano, vamos fazer um site, minha empresa é assim, assim e assim”, eu quero ir lá amanhã! Quero conhecer sua empresa, seus funcionários, de repente passar um dia inteiro lá para ver como é que funciona o seu negócio. Como é que funciona isso aí? Como é que seus clientes interagem com seu negócio fisicamente? Como é que ele lida com aquilo no dia-a-dia dele? E tento depois traduzir, um pouco, os textos que normalmente eu recebo ou do pessoal do marketing ou da agência de propaganda que está responsável por gerir aquele material para a internet.
Ainda existe muito esse trabalho de tradução? Tanto as agências de publicidade e o pessoal do marketing ainda não estão preparados para fazer isso para internet.
Adriano Macedo - Leonardo, vou ser muito sincero com você, vou completar 13 anos que trabalho com internet aqui em Fortaleza, nunca encontrei uma agência de propaganda preparada para trabalhar com internet aqui na cidade. Nunca encontrei. Encontrei muita gente interessada, tanto da parte do dono da agência, como de pessoas que trabalham lá dentro mesmo. Agora, arregaçar as mangas e vamos fazer, vamos entender o que é internet, eu nunca vi. O que eu recebo são erros extremamente primários de um pessoal que realmente… não é a praia deles. O camarada está acostumado a lidar com imagens de 50 megas, 100 megas, 300 dpis, aí você fala para ele “ó, mas não deixa passar de 35k não, que dá problema”. O cara endoida.
Na verdade ele não sabe fazer.
Adriano Macedo - Ele não sabe fazer. Ou então ele chega para gente: “olha, eu preparei o texto de introdução de histórico da empresa que são três páginas de Word”. Ahn? Três páginas de Word, filho? Eu não vou ler nem o terceiro parágrafo. Calma, não é assim que funciona. Eu sei que você tem muita coisa para dizer, mas vamos fazer de forma mais sucinta, as pessoas que estão acessando seu site tem 300 milhões de coisas para fazer também, eu tenho que lhe capturar na primeira linha. Raciocine desse jeito, me ajude.
Em 140 caracteres, como é o Twitter.
Adriano Macedo - Seria alguma coisa assim. Muita gente desceu o pau quando o Twitter foi lançando, que era besteira. Como tudo na vida, vai ter gente que vai usar para besteira e vai ter gente que vai usar para coisa melhor. Eu procuro entender daquele jeito. Tente fazer um resumo como o pessoal do Twitter consegue fazer. Seja sucinto, procure despertar a atenção do seu cliente nesse resumo, aí você fisga ele. Agora, querer colocar um histórico de três páginas? Pelo amor de Deus! Você leria? Normalmente é a pergunta que eu faço, aí o pessoal “é, realmente”… faz o seguinte, passa o texto para mim, eu resumo e coloco no ar. Então eu acabo trabalhando muito nisso aí. Então eu procuro entender a necessidade do cliente e procuro entender, melhor ainda, a necessidade do cliente do cliente. O que o seu cliente espera encontrar de você na internet? Ah, é isso daqui? Então vamos discutir. Ah, poderia ser isso aqui também? Vamos discutir também, não tem o menor problema. Agora, para chegar e dizer “vamos colocar três páginas porque isso é o correto”, eu não acho, não concordo com isso, acho que o seu cliente não vai conseguir chegar nem no terceiro parágrafo. Então, isso às vezes acontece, diminuiu bastante, a maioria dos clientes que eu comecei a pegar a partir de 2005, já vem bem mais amadurecido, provavelmente de experiências frustradas com a própria internet. Tentaram fazer o site de uma determinada forma, enveredaram por um caminho, não obtiveram resposta e agora “não, vamos tentar fazer uma coisa mais adequada para o que a gente precisa, sem muito exagero”.
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