Meu problema místico com filas
Por Leonardo Fontes no dia 12 Jan, 2008 em Humor, Pessoal
Quem me lê sabe que não tenho um lado místico, religioso, espiritual, o que o valha, mas há algo de errado comigo em filas, qualquer uma, algo de sinistramente místico.
Se eu acreditasse eu Deus, diria que Ele ao tocar o barro da minha criação me condenou: “Filas serão tuas inimigas até teu retorno à minha casa”. Se fosse espírita, teria certeza de, na vida pregressa, ter causado muita dor a pessoas em filas e, portanto, haveria agora um karma a resolver… vai que fui o nazista responsável por organizar a entrada na câmara de gás.
Se houver uma Matrix, o gerador de anomalias da programação, a peça do mecanismo para números aleatórios que darão características únicas a cada pessoa, fez com que meu avatar fosse uma variável de desestabilização das filas. If Leonardo=Fila then Stop. Ou talvez o fato de eu ser libriano com ascendente em libra, Lua em libra, Sol em libra, Júpiter em libra, Io e Europa em libra, o escambau em libra explique o fato de que sempre, sem exceção, em 100% dos casos em que eu pegue uma fila, ela empanque.
Acontece que gosto de fazer supermercado - também de lojas de peças para cozinha e o primeiro que me chamar de metrossexual será banido para sempre deste blog. Um dos prazeres da vida é passar horas olhando prateleiras com os mais diversos tipos de produto, principalmente na área de temperos, frios, carnes e, claro, bebidas. Mas estou chegando à conclusão que tenho que me abster desse prazer em nome da ordem mundial das filas. O melhor a fazer é elaborar uma lista e mandar outra pessoa fazer o serviço para não precisar encarar:
- o cartão de crédito com limite curto: a pessoa liga antes de sair de casa para o cartão e se certifica de quanto ainda tem de crédito, descobre que tem meros R$ 100 e sai para fazer o supermercado. Entope o carrinho com tudo quanto é tranqueira e, claro, chega antes de mim ao caixa. Lá pelas tantas, a conta chega a R$ 153,49, a cara-de-pau tenta passar o cartão, que é imediatamente recusado. Começa então a longa e seletiva retirada de produtos: “Tira essa polpa, é supérflua, agora essa carne de porco aqui, tô de dieta”. Moças de patins correm para inserir uma senha especial que o caixa regular não tem, tanto para cancelar a venda quanto para reabri-la. Nisso, estou eu pensando porque não peguei a fila do lado, com 20 pessoas a mais, mas que anda com uma fluidez de máquina.
- a poupadora: ela(e) é do tipo que leva lista de compras e calculadora, a organização em forma de cliente. Anota preço por preço e faz as contas, sabe quanto tem para gastar e quais são as ofertas mais baratas. Tem tudo para ser uma usuária ágil de filas, com tudo pronto nas pontas dos dedos. Mas supermercados são uma estrutura displicentemente programada pela Matrix/Deus/Karma/Astrologia (ou simplesmente desonesta), sempre haverá produtos com discrepância de preços entre a prateleira e o caixa. “Ah, mas lá esse feijão tá de R$ 2, aí passou R$ 2,05″. Luz de alerta ligada, mais moças de partins para inserir senhas especiais, o embalador de pacotes corre para verificar se o que o cliente alega é verdade e eu, é, eu, a variável desestabilizadora de filas, olho para os lados, para aquelas outras filas maravilhosas, modelos de agilidade e esperança. Mas já é tarde demais, sou o próximo desta e, de qualquer forma, se eu mudar, não vai adiantar de nada mesmo porque para onde eu mudar, a fila haverá de parar.
- a família numerosa: para alguns, supermercado é passeio em família, vão os cinco filhos, os pais, a empregada e, se couber no carro, a avó com Alzheimer. A cena é infame em todos os seus aspectos, mas o que mais me irrita é a seleção daqueles produtos que serão realmente comprados, sempre adiada para a boca do caixa, nunca, jamais, na frente da prateleira. É uma compra baseada no caos e na desordem. O filho de 7 anos quer Ruffles e taca um, ou vários punhados de sacos dentro do carrinho sem que ninguém se oponha. A filha na puberdade, preocupada com a menarca e já toda orgulhosa, coloca um sem número de tipos diferentes de absorventes íntimos, dos grandes, dos pequenos, dos que não fazem volume, dos que são enfiados, dos que tem um gel especial que absorve oceanos inteiros, além, claro, de cinco barras de chocolate, porque ela está muito aflita com o encontro na missa de domingo, momento em que dará seu primeiro beijo na boca, infelizmente com o chato do Carlinhos. O pai, calmo, tranquilo, vendo toda aquela algazarra, coloca apenas 5 ou 15 dúzias de cerveja Polar, pronto, para ele o supermercado acabou. A mãe e a empregada, entre uma briga e outra sobre o que está faltando em casa e os súbitos desaparecimentos da avó, sempre encontrada na seção de brinquedos, fazem contas, comparam preços e falam mal da vida do próximo. É chegado o momento de ir ao caixa, o carrinho programado para ser apenas um, se multiplicou em três. Os Ruffles são todos retirados (choro aos berros), os absorventes serão trocados por um improviso caseiro (talvez um pano de cozinha) quando a sangria da menina der de descer (”mas mãe, é nojento!”), o porre do pai é negociado para apenas duas latinhas de cerveja. Depois daí até que começa a fluir, quando chegam ao biquini fio dental, daqueles realmente safados feitos para mostrar toda a região lombar de uma mulher. Olhares acusadores e silenciosos transparecem uma certa tensão familiar. A mãe olha para a peça como quem estuda uma questão de trigonometria, que será resolvida em segundos. Com o pragmatismo de um Alexandre, o Grande, o biquini é tido como engano, problema dos outros, talvez outro cliente tenha errado de carrinho. Mais moças de patins, mais senhas, mas idas e vindas do empacotador para verificar etiquetas e ofertas enquanto eu, bem, eu até que não estou tão maus, porque vi o olhar de euforia da ovó repentinamente transformar-se em decepção quando, sem mais nem menos, o biquini foi deixado para trás.
- a sangria: ou fechamento de caixa. Em supermercados grandes não tem hora certa para acontecer. Cada caixa tem seu momento, determinado por um balé qualquer do sistema de informática que escolhe, usando critérios misteriosos, depois de que cliente o caixa será fechado para sangria. Só que além de ser desestabilizador de filas, também sou estopim de sangria. Até para comprar cerveja em posto de gasolina a maldita me atrapalha. E a reabertura do caixa nunca é rápida, ou conexões caem ou o item seguinte mostra as garras.
- a impressora que pifa e o papel que acaba: acho que é despeito das impressoras comigo, é pessoal. Não preciso delas há séculos, quando é de precisar, o que acontece só em filas, elas resolvem fazer charminho. É o ás na manga do destino para fazer uma fila empacar. O cartão passou, a poupadora não encontrou nenhuma diferença de preços, a família era das unidas e a sangria não foi sorteada, é a hora da impressora mostrar quem realmente é, uma máquina sádica, de inteligência e sensibilidade superiores usadas para o mal.
E isso é o que acontece apenas em supermercados, em bancos existe toda uma sorte de contratempos de deixar qualquer um pensando em ligar-se a um seita.
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A foto do post é de Ricardo Motti.






