Deus como garoto-propaganda
Sempre imaginei qual seria o maior trunfo de uma campanha publicitária, se um conceito único, a produção mais rica, a direção de arte de cada peça ou atingir o target… São muitas as variáveis que definem uma boa campanha, mas qual seria o maior feito de uma agência ou publicitário? O quê faria um produto inesquecível por séculos, milênios a fio, com recall de 100% do público? Só existe uma resposta: Deus como garoto-propaganda.
Fla-Flu, meados de dezembro no Maracanã, 78 mil torcedores que lotam uma partida histórica. Aos 35 minutos do segundo tempo o Flamengo empata no 4×4. O estádio está à deriva, o campeão será decidido na habilidade dos jogadores ou na sorte; as táticas de ambos os times estão no limite, os técnicos não sabem o que fazer, os torcedores engalfinham-se na briga como se a violência determinasse o vencedor; os comentaristas esportivos teorizam. É o momento, os últimos dez minutos que determinarão a alegria de alguns e a tristeza de outros quando, sem aviso, as nuvens se abrem para o coro celestial. Desce então uma mão gigantesca atravessando os ares, a própria mão de Deus já com o dedo indicador armado para escrever, na mais crua terra do campo agora vazio, a data: 27 de Julho.
Pittsburgh Steelers versus Seattle Seahawks, no mesmo período de dezembro, Louisiana Superdome. Adrenalina à tona, Steelers a jardas do ponto decisivo, quando novamente a mão de Deus, dedo indicador armado, escreve na terra do estádio: July, 27. Testemunhas lembrariam mais tarde do barulho feito pelo arrastar do dedo na grama do estádio.
Campinas, mais precisamente na festa de fim-de-ano da Unicamp quando estudantes, professores, simpatizantes e uns tipos que vendem uns bagulhos estranhos se confraternizam no que, dizem, é uma busca pelo “ser”, o dedo de Deus, testemunhado por olhares incrédulos, desenha no chão batido: “27 de Julho, aê brother, fiz!”
O mesmo fenômeno acontece simultaneamente em vários locais do mundo. No Ceará, lá pelas bandas do Crato, os moradores ouvem o barulho do Dedo riscar nas serras “27 de Julho, mah”. No Vaticano, em plena Praça de São Pedro, é escrito: “27 Luglio, capisce?”.
No dia seguinte, da CNN à Al Jazeera, passando pela TV Diário, nos fóruns de discussão, no Digg, no Rec6, no NossaVia e até onde poucos acreditavam, como o Ueba, a humanidade inteira só fala do dedo Dele. Será o fim dos tempos? É o dia do julgamento final? É quando eu vou morrer? É o prazo para eu perder a virgindade? Todo aquele buzz de sempre.
Nos main stream media discute-se até onde nós fomos culpados. Nas rodas fundamentalistas resta a certeza do fim e o gozo da iluminação - consta que alguns tiveram o primeiro orgasmo ao dizer “meu Deus, meu Deus, por que não riscaste a data em mim?” e, em relatos mais apócrifos, desacreditados por historiadores sérios, “Ai, como eu queria aquele dedênho”. Dentre os agnósticos e ateus, se perguntava “o que diabos vai acontecer dia 27 de Julho? Cadê as provas?”. Na blogosfera surgem listas como “Os 10 blogueiros que vão para o Céu” e “Os 10 blogueiros que vão direto para o Inferno”. Polvorosa, suicídio em massa, sexo desenfreado, crise na economia… O caos por seis meses.
Então, na bela manhã que seria o dia 27 de julho, seis ou sete meses depois da primeira intervenção de Deus, restam poucos humanos, apenas aqueles que não viram O Dedo descer dos céus, alguns índios, um pessoal aí que só via televisão aberta e uns poucos teimosos em viver. Ah, claro, o Steve Jobs, que apresentou o iGod, um gadget super-ultra-bacana capaz, dentre outras coisas, de ferver água, mover montanhas e ressuscitar almas, tudo com um movimento smooth de um botão clean.



































