Grandes questões universais do esporte

Bola na caraMeu esporte predileto é implicar com o esporte (com religião também é bacana). Não que tenha algo contra a atividade em si, o que não suporto é a indústria, distorcedora de todos os ideais e criadora de motos contínuos de inutilidade. Calha do esporte ser o melhor exemplo e não há nada que se fazer contra. É fato.

Para manter o espírito alerta e a prática em dia, seguem questões fundamentais de uma das mais antigas necessidades humanas (as outras são sexo, rabiscar em parede e sair na sexta para beber com os amigos). Se esqueci de algo, por favor inclua nos comentários. Se sentir vontade de jogar pedra em mim, me procure em Fortaleza, meu nome verdadeiro é Marcelo Augusto Glacial (Leonardo Fontes é pseudônimo) ou investigue meu outro blog, o Teoria Glacial.

  1. xadrez nas páginas esportivas: se xadrez é esporte, por que não existe cobertura também de dama, pebolim, ludo, Banco Imobiliário, War, zero-ou-um, pôquer, pif paf, buraco ou, quiçá, porrinha?
  2. existir ou não impedimento: passei minha infância ouvindo o debate sobre o impedimento e, vez ou outra, me deparo com ele nas mesas de bar da vida. Eu, que sou um leigo total em futebol, acredito que sem impedimento simplesmente não existe jogo. E não é questão de entender de futebol, mas mero uso de lógica simples. Sem um mecanismo que regule os limites do ataque, todos os jogadores ou ficariam estáticos em sua própria área ou correriam em massa e desordenadamente para a área do adversário. O impedimento é a alma da estratégia e do movimento da bola. Mas adianta falar isso? Tá com mais de 20 anos que não sou criança e essa lenga-lenga ainda desencadeia paixões.
  3. ping pong ou tênis de mesa: ilustra o rebatismo de uma prática esportiva em nome do marketing. É uma espécie de aplicação do politicamente correto para construir uma nova imagem, ping pong é coisa de criança, tênis de mesa é para profissionais. Mas sejamos realistas, Thiago Monteiro joga e sempre jogará ping pong para os 99% da humanidade que ligam lé com cré.
  4. a televisão monopolizante: é belíssimo o papo do ingênuo quando reclama que determinada rede de televisão monopoliza transmissões. Não percebe que o mal está nos detalhes, o comprador faz o que desejar com o objeto comprado. Se é para a transmissão dos jogos ser livre e universal, que ela não seja vendida como propriedade privada. O buraco, como sempre, é mais embaixo.
  5. os supersalários: o esporte reproduz uma das poucas verdades da vida: o supérfluo é sempre mais caro que o essencial. Ninguém come diamantes, por isso não custam R$ 1,99 o quilo. Mas este não é de fato o problema, o nó é dado quando o consumidor do esporte xinga o atleta por ganhar US$ 2 milhões enquanto ele mesmo paga este salário em forma de audiência. O comprador do diamante aceita e paga de bom grado, o comprador de esporte o faz à revelia.
  6. síndrome do jornalista chato: sou jornalista e admito, não tem raça mais irritante no universo conhecido (talvez só os vogons). A categoria detém uma característica geral e outra, mais ligada ao esporte, que irritam qualquer cristão. A primeira é o senso crítico exacerbado, exercitado a todo custo para que beire o paradoxal, o que nos torna eternos insatisfeitos (ou malas sem alças). Rodrigo Borges tem um post curto com um exemplo que de tão freqüente já é um clássico. O segundo é que a maioria dos jornalistas esportivos tem 12 anos (enfatizo, a maioria, existem brilhantes exceções) e optaram por cobrir esporte por um motivo simples: passar a vida inteira reclamando de lances duvidosos, xingando juízes, decorando todos os nomes de jogadores, técnicos, diretores… em suma, colecionando figurinha de álbum. E assim como não há nada mais perigoso que um criminoso de farda, há pouco mais tosco que um torcedor xiita com diploma de jornalismo.
  7. praga do torcedor insuportável: presente em todas as galáxias em que se pratica esporte. Eles já existiam quando o primeiro homem levou carreira de um animal selvagem e torciam… pelo animal - é que sempre dedicam muita energia para o lance errado; e existirão quando o futebol for jogado em um fio de vidro suspenso em gravidade zero nos campos de Marte. São inextinguíveis, depois da hecatombe nuclear restarão apenas escorpiões, baratas e torcedores. O torcedor tem um arquiinimigo, o jornalista especializado, para ele qualquer profissional de imprensa que trabalhe com esporte (leia-se futebol) está constantemente arquitetando um complô internacional em aliança com forças obscuras (CIA, Mossad, KGB) contra o time do coração. E não adianta argumentar contra fanatismo, mesmo porque, neste caso, nem sempre ele está errado.
  8. o resultado foi injusto: para fechar com chave de ouro. A frase “embora jogando melhor o time X perdeu” sintetiza perfeitamente esta miopia funcional. É uma contradição de lógica, se jogou melhor e perdeu é porque não jogou melhor. Há de se lembrar, quem escreve a história é o vencedor. E o esporte não foge à regra, não é lugar para lances bonitinhos, acrobacias fabulosas, desenvoltura hiper humana, para isso tem circo, esporte é competição, a eterna busca por humilhar o outro e rir da cara do próximo. Se é para jogar, joque para ganhar, se não conseguir não venha com essa de “jogou melhor mas perdeu”, desculpa esfarrada predileta de quem chegou em segundo lugar.

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