Papo pseudo-intelectual: trechos de livros que ficaram na memória
Este é o primeiro de dois posts que nasceram de conversas de bar ou informais (como diria uma amiga, papo pseudo-intelectual) sobre livros. Geralmente é o tipo de assunto que não leva a nada, porque ou existem as preferências que beiram o fanatismo ou a pessoa quer saber de literatura como de sexualidade das doninhas. E, claro, o álcool que rega esses momentos únicos também não ajuda em coisa nenhuma.
Existem trechos que te fazem retornar ao livro só por eles. Um dos que lembro sempre, é do Ulisses joyceano, quando Leopold Bloom faz uma farra em um bordel e no delírio conversa com uma ninfa (para contextualizar, a ninfa é referência a uma imagem na cabeceira de uma cama):
NINFA: Lembras de mim?
BLOOM: Você se refere ao Photo Bits?
NINFA: Me refiro. Me levaste, emoldurada em carvalho e ouropeu, me puseste sobre teu leito conjugal. Não visto, numa tarde de verão, me beijaste em quatro lugares. E com lápis amoroso sombreaste meus olhos, meu peito e minha vergonha.
Cem Anos de Solidão, para citar um lugar-comum literário, já que é unânime (ou tem alguém aí que não gosta?), tem um dos trechos mais fantásticos que conheço, a morte de José Arcadio Buendía:
Logo que José Arcadio fechou a porta do quarto, o estampido de um tiro retumbou na casa. Um fio de sangue passou por debaixo da porta, atravessou a sala, saiu para a rua, seguiu reto pelas calçadas irregulares, desceu degraus e subiu pequenos muros, passou de largo pela Rua dos Turcos, dobrou uma esquina à direita e à esquerda, virou um ângulo reto diante da casa dos Buendía, passou por debaixo da porta fechada, atravessou a sala de visitas colado às paredes para não manchar os tapetes, continuou pela outra sala, evitou em curva aberta a mesa da copa, avançou pela varanda das begônias e passou sem ser visto por debaixo da cadeira de Amaranta que dava uma aula de Aritmética a Aureliano José, e se meteu pela despensa e apareceu na cozinha onde Úrsula se dispunha a partir trinta e seis ovos para o pão.
- Ave Maria Puríssima! - gritou Úrsula.
Seguiu o fio de sangue em sentido contrário, e em busca da sua origem atravessou a despensa, passou pela varanda das begônias onde Aureliano José cantava que três e três são seis e seis mais três são nove, e atravessou a copa e as salas e seguiu em linha reta pela rua, e em seguida dobrou à direita e depois à esquerda até a Rua dos Turcos, sem se lembrar que ainda trazia vestidos o avental de cozinha e as chinelas caseiras, e saiu para a praça e se meteu pela porta de uma casa onde não havia estado nunca, e empurrou a porta do quarto e quase se sufocou com o cheiro de pólvora queimada, e encontrou José Arcadio caído de bruços no chão, sobre as polainas que acabava de tirar, e viu a fonte original do fio de sangue que já havia deixado de fluir do seu ouvido direito.
Se existe algo mais América Latina que esse fio de sangue, só Julio Cortazar ou Borges.
Paradise Lost, Miltão:
What in me is dark, illumine, what is low, raise and support.
Dito em forma de oração, mantra:
O que em mim é negro, ilumine, o que é baixo, eleve e mantenha elevado.
Engraçado que em português não soa muito bem, ou então sou um tradutor muito pífio. E que tem seu contraponto no Macbeth de Shakespeare:
Stars, hide you fires, let no light see my black and deep desires.
Fora de contexto, em que as estrelas são realmente estrelas não o rei e os vassalos que podem melar os planos de Macbeth, soa pessoalmente sombrio:
Estrelas, apaguem seus fogos, que nenhuma luz veja meus negros e profundos desejos.
E por hoje e só que já arrotei muita cultura inútil, e olha que nem coloquei o começo do “José e seus Irmãos” do Thomas Mann, que tem um início perfeito e todo o resto idem.
P.S.: metade dos trechos que planejei para esse post não foram publicados porque não consigo encontrar os livros, já acionei a polícia para investigar o roubo e uma terapia para me ajudar na auto-organização. Tinha João Ubaldo e seu Viva o Povo Brasileiro, lindos trechos, e, bom, é, Umberto Eco e o Diário Mínimo, que também ninguém vive só de lirismo, bom mesmo é rir.
P.S.: qual a utilidade deste post? Nenhuma.















