Regionalismos e mal-entendidos

Moro no Ceará desde os 16 anos, mas sou piauiense. Embora Fortaleza não me fosse estranha, senti dificuldade em entender certas expressões - acredito que alguns nativos também não me entendiam muito bem - quando me mudei para cá. Um caso, para servir de exemplo, é “banhar”. No Piauí ninguém usa os talvez mais corretos “vou tomar um banho” ou “vou me banhar”, mas “vou banhar”, curto e grosso. Diga isso aqui e você vai ver um interlocutor esperando o fim da frase, banhar o quê?

O propósito deste post é levantar a pergunta sobre as expressões que podem gerar mal-entendidos na internet, mais especificamente em blogs, que naturalmente usam uma linguagem mais coloquial. Para isso vou convidar outros cinco, escolhidos por estado, para um meme.

Dentre as expressões cearenses mais autóctones que me deixaram com aquela expressão de duas mãos com palmas viradas para cima de quem espera uma explicação, estão as seguintes:

  • macho véi: é o correspondente ao “garoto” de “como vai, garoto?”, ou “rapaz” em “e aí, rapaz?”. É um vocativo, serve para chamar atenção como em “ei, macho véi!”, que tem sua grafia mais miguxês no “ei, maxo véi!”. Não conheço a origem, acho feio mas me pego usando a versão mais curta “mah”. Se na conversa com um cearense surgir um “mah”, é nada mais que a abreviação da abreviação de “macho velho”. Ultimamente, as meninas começaram a usar “macha véia”, que consegue ser ainda mais tosco.
  • botando boneco: criar confusão, ou “boneco”. Alguém em uma loja brigando por preço está “botando boneco”, briga de casal aos gritos e em público é “botar boneco”. Barracos em geral são “bonecos”.
  • baitola: a origem da palavra é uma controvérsia, a mais aceita é a do oficial inglês, mas a verdade é que ninguém sabe ao certo. A palavra define homossexual e já é nacional, mas em 1990, para mim, homossexual era “viado” mesmo (com “i”, com “e” era o bicho) ou, no máximo, o “qüalira” da gíria maranhense. Hoje a expressão não tem tanta conotação ofensiva, é muito mais usada em conversa de “macho véi” quando fresca com outro.
  • frescar ou mangar: talvez a tradução mais simples seja “tirar sarro”, “fazer onda”, brincar com alguém.
  • rebolar: aqui não significa mexer os quadris em dança, o usual está mais para se livrar de algum objeto ou pessoa, como em “macho, pelo amor de Deus, deixa de ser abestado, arrocha e rebola isso fora”.
  • abestado, tapado e lesado: lento, burro, estúpido.
  • arrochar: é “enfrentar” algo na conotação cabra macho de confronto. Nunca se meta com um sujeito “arrochado”, é sempre um risco.

Para os cearenses que andam por aqui, fica o convite para inserir outras expressões nos comentários, mas meu desejo real é saber de outras gírias em outras paisagens, portanto, escolhidos a dedo para o meme e responsáveis por continuar o passeio:

  • Sampson Moreira - tenho sérias dúvidas se é pernambucano e suspeito de um pé no Crato, que não deixa de ter seus próprios regionalismos bem mais interessantes que a capital Fortaleza. (o Sampson já respondeu ao meme lindamente)
  • Rafael Slonik - paranaense do interior, e logo de uma cidade chamada Ponta Grossa.
  • Hilder Santos - bahiano, sempre um território rico.
  • Mirian Bottan - do interior paulista, Americana. Tenho uma amiga de São Pedro (é perto?) que ainda me deve um dicionário São Pedro - Português, Português - São Pedro.
  • Daniel Becher - de Florianópolis. É o maior potencial para me apresentar novidades, sei muito pouco sobre Santa Catarina.

Me culpo por não conhecer blogs do Norte. Acre, Amazonas, Roraima, Rondônia, Amapá, Pará e Tocantins devem ter expressões maravilhosas.

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