Palavras para usar no seu manifesto artístico
Por Leonardo Fontes no dia 15 Mai, 2007 em Arte, Humor
Primeiro quero explicar que este guia não é para aquele “artista” sinônimo de celebridade, mas para o comprometido com sua arte, sua técnica, coerente enquanto sujeito inserido no mundo e orgulhoso de sua visão holística da realidade.
Segundo, “artista” é muito Século XX, então antes dos termos obrigatórios para usar no seu manifesto, é preciso forjar a alcunha que lhe definirá, detalhe importantíssimo para releases, entrevistas, apresentações em saraus e para se comunicar de igual para igual com outros “artistas”.
Um método eficiente é usar prefixos, preferencialmente os que geram alguma antítese ou negação. Exemplos: você não é um poeta, mas um “não-poeta”; nunca diga que você é um escultor, mas sim um “pseudo-escultor”, porque no fundo sabe da impossibilidade de esculpir o real em um mundo onde a arte é cada dia mais fluida e transitória. Afixos que dão idéia de multiplicidade também são recomendados, você não compõe músicas, mas multi-músicas; você não tem apenas um suporte para se expressar, por isso o consagradíssimo “artista multimídia”, que você, claro, tem toda a libedade de trabalhar em cima, mas sem disvirtuar demais o sentido. Esta definição ou profissão é o prefácio do manifesto. Cuidado com ela.
Agora, aos termos que não podem faltar no texto que explicará para os desavisados todo o fundamento do seu estilo. Aqui é preciso ser direto, sua arte de fato não importa, desde que seja incompreensível para 92% da humanidade. É função do manifesto esclarecê-la para os não-iluminados, sem ele ninguém vai entender nada. Faz-se então necessário um arcabouço anti-teórico, semi-literarário (ou pseudo ou não-literário se preferir) para que todos possam, depois de duas horas de explicações, dar aquele “aaahhhhhh, entendi” ou o “uau, como você é complexo!” tão aguardados.
Pronto, sem mais delongas:
- tupi-guarani: use e abuse de palavras em tupi-guarani. Jamais escreva “homem” ou “mulher”, mas “abá” ou “auá”. Você é um não-artista preocupado com o “real” do seu país (a propósito, nunca use “realidade”, isso é para os mortais, mas O “real” ou OS “reais”) portanto atenha-se à sua matiz cultural. Um dos grandes erros de Chico Science foi usar “mangue” em “mangue beat” quando poderia muito bem ter usado “ape’kü”. Jornalistas sempre se ateêm a esses detalhes, um movimento chamado “ape’kü beat” teria recebido mais capas de cadernos culturais.
- performático: você está em constante ação com seu objeto artístico, essa interação constante deve ficar clara em um termo. “Performático” é perfeito, mas melhor ainda é;
- work in progress: seu trabalho nunca acaba, seu objeto é fluido como o real do mundo. Sem falar que “work in progress” te põe no mesmo patamar de gente como Ezra Pound, James Joyce e T.S Eliot. Você pode alterar para mostrar que entendeu o conceito, tipo para “word in progress”, “painting in progress”, “sound in progress” e, caso você seja realmente muito comprometido com sua obra, “life in progress”.
- alternativo, underground ou marginal: você não é mass media, todo artista que se preze é um outsider, está além mercado de consumo. Aqui cabe também uma dica comportamental, nunca aparente sucesso, você tem que ser magro de passar fome, se vestir mal e ter uma barba cultuada a Marx;
- o coletivo: embora você seja um outsider e não dependa da sociedade para “ser”, sua preocupação essencial é com o “coletivo”, os demais, o homem comum que precisa ser questionado quanto ao “real”. Você não trabalha para si, abnegado e autruísta todo o seu sofrimento é em nome da humanidade;
- cite a física: os físicos são os novos filósofos, e você é co-autor da nova era do quantum. Boas palavras nesse sentido: o fóton de luz (não se incomode com a redundância, ela é uma figura de estilo), quarks, mésons, subatômico, onda, partícula e entropia;
- fragmentação: nunca deve ser usada a mais de duas palavras de distância de “real”;
- outras palavras e expressões sortidas: “a grosso modo”, “via de regra” (jamais se o manifesto tiver algo de feminista, pega mal), “esfera psíquica”, “dualidade” (ou “dual”), “amar é criar e criar é amar”, “premissa” e;
- simulacro: nunca, jamais, em hipótese alguma esqueça da palavra “simulacro”. Ela é sua amiga, sua mais forte aliada, todo o seu “work in progress” é o simulacro do real, as pessoas precisam entender isso, é essencial para que o mundo absorva a transcendência do fóton.
E lembre-se, artistas sérios, geniais e de alto nível não são facilmente compreendidos, não conseguem se comunicar diretamente com a turba ignara sem a mediação de uma carta de princípios. Espero ter sido útil.






