O jornalismo esportivo é um porre

2007 Abril 10

Só existe um tipo de jornalismo mais chato que o esportivo, é o de celebridades, mas esse vai ficar para outro post. O jornalismo especializado em esportes, principalmente no Brasil em que a alma do negócio é o futebol, repete toda semana o que outras modalidades de jornalismo costumam repetir em intervalos mais esparsos.

As equipes de economia sempre fazem aquelas pautas como venda de velas e flores no Dia de Finados, aumento de preço do pescado na Semana Santa, crescimento do comércio no Dia das Mães, dos Pais, das Crianças, Natal… com comparações entre o índice atual e o do ano anterior, apanhados de décadas, desencavam especialistas (e tem especialista em tudo, até em vela de Finados) para falar sobre o assunto sazonal do momento. Mas entre uma repetição de pauta e outra sempre acontecem coisas novas, economia é um mundo complexo, cheio de nuances que eventualmente são exploradas. Isso acontece com todas as outras equipes, seja de cidade ou cotidiano, política, nacional ou internacional (que talvez sejam as duas menos repetitivas) e polícia.

No jornalismo esportivo a repetição da pauta é a regra, não passa uma semana em que não estejam nas manchetes:

  1. a compra ou negociação de um jogador qualquer, o que freqüentemente gera uma polêmica oca de merecimento, estado físico, teorias de conspiração sobre manipulação de informações para a imprensa, brigas entre agentes e admnistradores de times e, claro, somas impossíveis;
  2. um atleta contundido, que gera ainda mais polêmica sobre tratamento médicos, cirurgias inovadoras, o lado emocional do jogador que ficará afastado por uns tempos, gráficos que explicam detalhadamente cada músculo ou osso danificado e o impacto disso em uma possível negociação de venda para outro clube;
  3. tapetão. Não existe esporte que tenha mais brigas judiciais que o futebol. Qualquer pontapé inviesado na bola é motivo para um clube tentar vencer outro fora de campo. Mais polêmica, e cada uma mais fundamental para o girar das estrelas que a outra;
  4. briga de torcida. Nunca entendi direito a falta de solução para o problema. Não bastaria colocar os torcedores rivais no estádio, no campo, não na arquibancada, e distribuir gratuitamente algumas granadas? Em Roma antiga seria assim, só que com espadas, lanças e escudos. Ninguém impede quando um exército quer detonar outro, por que é diferente com essas milícias de uniforme patrocinado? Enfim, então, toda semana um mata outro e faz manchete, pulam especialistas para falar sobre educação, composição das torcidas organizadas e punição aos clubes. Anos e anos de notícia;
  5. cartolas e o quanto eles são incompetentes. Entra Vicente Mateus sai Vicente Mateus, a cartolagem é sempre a mesma, uma entidade mais próxima da máfia que de empresas responsáveis. Manchetes e mais manchetes, mas é importante que fique assim, uma instituição correta não é notícia;
  6. “foi pênalti?” e suas variações “foi falta?”, “foi impedimento?”, “foi mão?”. Nunca vi a conclusão de um debate do tipo alterar o resultado de um jogo, então qual o motivo da polêmica? Pura verborragia, manter a bola em campo;
  7. a arbitragem. Você já viu uma matéria completa sobre um juíz com atuação impecável? Como tem juíz ruim no futebol, eles são in. Mas faz sentido, ser ruim dá mais Ibope;
  8. “mereceu ou não ganhar?”. Essa é a discussão mais oca do futebol. Se ganhou é porque mereceu, cacete. É da própria natureza da vitória, quem ganha sempre merece.

Paixão em geral é um porre. É como o cara que se apaixona por uma vesga das pernas finas e tortas, os olhos serão lindos e as pernas de cinema. É o que acontece com o jornalismo esportivo, em particular o de futebol, o jogo em si é limitado, é como o xadrez, só existe surpresa para quem não estudou direito ou para os desatentos. A saída é criar, repercutir, refundir, mastigar e remastigar o que há de político, econômico e policialesco além dos portões dos estádios.

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