Eu como fnords no café da manhã

2007 Março 21

http://www.kittymeowmeow.net/images/ps/snake_tongue.jpgO termo “fnord” está intrinsicamente ligado a teorias conspiratórias, mais precisamente à seita (ou religião, piada, sátira, filosofia) conhecida como discordianismo. O texto sagrado dos seguidores é o Principia Discordia, escrito por Greg Hill e Kerry Thornley em 1965, onde a palavra aparece pela primeira vez.

Anos mais tarde, Robert Anton Wilson e Robert Shea, na Trilogia dos Ilumminati (conspiração sem eles não é conspiração), popularizaram tanto as idéias do discordianismo quanto a palavra, que serve para designar mensagens presentes em jornais e revistas para deflagrar medo e ansiedade como forma de controle social. A trilogia é uma grande ficção científica de contra-cultura.

Embora exista toda uma mitologia em torno dos fnords, portanto estórias inverificáveis, a definição mais aceita da palavra é uma ótima metáfora para este post.

Segundo a Wikipedia, fnords são representações tipográficas errôneas ou informações irrelevantes para distorcer interpretações da realidade. Uma outra corrente desdobra o significado em palavras de condicionamento ideológico, aceitas como verdades por quem não refletiu o suficiente sobre o real significado delas ou seu contexto. Um condicionamento que seria elaborado pelo próprio sistema educacional vigente.

Conspirações e seitas à parte, posso pensar três termos que vestem-se perfeitamente com a carapuça.

Terrorismo e defesa

O terror é um privilégio do inimigo. Não importa se você é americano, italiano ou latifundiário, os terroristas sempre serão ou os fundamentalistas islâmicos, a extrema esquerda italiana ou o MST. Na verdade, não importa muito se você é um fundamentalista islâmico, da extrema esquerda italiana ou do MST, os terroristas sempre serão ou os americanos, o governo italiano ou os latifundiários.

Terrorismo nada mais é que um fnord para causar… terror, seja de que lado for. E, claro, pessoas com medo de inimigos tão terríveis quanto terroristas, são mais fáceis de enviar para campos de batalha com 20 kilos de equipamentos ou para um restaurante com 20 kilos de explosivos. 

Terrorismo leva a outro fnord, “defesa”. Defesa é um privilégio dos aliados. Um aliado nunca ataca, apenas se defende, exercita um direito universal e inalienável contra os inimigos. Enviar 20 mil tropas para um país é sempre uma medida de defesa, assim como jogar três aviões em prédios, só depende de que lado se está.

Ambos os fnords são ideologia pura.

Capitalismo

Capitalismo talvez seja uma das palavras mais mal aplicadas dentre os fnords. A definição clássica:

Sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção, distribuição e troca por lucro sem a regulação do Estado.

No capitalismo, a influência do estado é, idealmente, nula. O estado não deve interferir, o capital é o regulador, os interesses de compra e venda determinam as regras. É seguir a definição à risca para perceber que não existe um único país no mundo que seja capitalista.

Um exemplo: as negociações do etanol entre Brasil e Estados Unidos. O primeiro tem tecnologia e é o maior produtor do mundo, o segundo tem interesse de compra, mas taxa as importações do produto. Em um capitalismo ideal, que nega os subsídios e as barreiras de comércio, ambos quebrariam: o produtor americano, que usa uma matéria-prima menos eficiente, o milho, e tem uma mão-de-obra mais cara teria que competir diretamente com o etanol brasileiro à base de cana-de-açúcar, mais eficiente, e mão-de-obra mais barata. A taxa é uma proteção do governo ao seu mercado interno - o que leva a outro fnord, “globalização”, que só é bom no globo dos outros.

Quanto ao Brasil, sem a taxa proibitiva e todo um mercado disposto a pagar mais caro, haja etanol para os Gols Flex da vida, seu carrinho teria que voltar a beber grande doses de gasolina. Claro, talvez a lógica não seja tão linear, mas a idéia de ambos é proteger mercados, regular o capital e os interesses de compra e venda. Foi-se o capitalismo.

Outro exemplo é a França e seus agricultores. Um governo que desça centavos no subsídio agrícola vai ter que lidar com tomates, leite, laranjas, toneladas de salada nas ruas de Paris.

O capitalismo é tão presente no imaginário ocidental que mesmo com sinais claros que contradizem sua definição histórica, ele é visto como real. O ideal do liberalismo, que fez nascer a lógica do capital, é só mais um modelo econômico tão fora de moda quanto o socialismo, e Adam Smith agora se revira no túmulo.

Nada contra esse modelo de interferência, é o eventualmente viável, mas que capitalismo é um fnord dos grandes, ah é. Você não vive no capitalismo, mas em um sistema muito próximo do keysiano.

Dever de casa

Essa é para quem quiser comentar ou continuar com o post. Alguém pode me dizer por que “democracia” também é um fnord horrível?

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