O resultado do Enem mostra quão negro vai ser o futuro
Vou me auto-referenciar, em um exemplo de masturbação intelectual explícita, mas outro dia, no post Credibilidade de autor e de veículo, escrevi a seguinte frase, que não esperava ver refletida tão depressa:
A mudança dessa realidade indesejada não está nas mãos da internet, com o fim dos blogs ruins ou o isolamento das ovelhas-negra da blogosfera, o desafio é sistêmico, é educacional e global, afeta todo e qualquer aspecto da vida, sejam blogs ou mecânica de automóveis - a estupidez é um produto em expansão.
Embora o alvo da frase tenha sido os blogs e a relação que muita gente desenvolve com eles, posso extrapolar para todas as atividades possíveis, dentro ou fora da internet. O mundo simplesmente está ficando mais idiota, como muito bem demonstra o resultado do Enem, divulgado hoje.
Mais de dois milhões de alunos do ensino médio, de escolas particulares (gente que paga para estudar em escolas supostamente de primeira linha) e públicas participaram da avaliação. Para citar o texto do Inep:
Alunos que estudaram somente em escola pública obtiveram médias 34,94 (prova objetiva) e 51,23 (redação), enquanto o grupo que declarou ter estudado somente em escola particular teve média igual a 50,57 na parte objetiva e 59,77 na redação.
A média geral? 36,90 para as questões objetivas e 52,08 para a redação, numa escala de 0 a 100.
Você entende a seriedade desse resultado? Serão futuros jornalistas sem massa crítica, alguns serão médicos ou enfermeiros, professores que vão perpetuar e aprofundar o drama da educação no País. Será uma turma que ouvirá o galo cantar certa hora sobre como ser um problogger, como ganhar tubos e tubos de dinheiro com o AdSense e encher a internet de porcaria, como se o cenário atual já não fosse o suficiente. Ou pior, vão aprender a mandar spam na tentativa de pescar alguma vítima. Nossa tecnologia continuará de quinta ainda por, pelo menos, uma década, nossa agricultura continuará artesanal em boa parte dos grotões, tudo por causa de um modelo que funciona, em grossas linhas, mais ou menos assim:
- Seu João e Dona Maria são agricultores do Catolé do Rocha, na Paraíba, e têm doze filhos;
- Os doze, que antes ajudavam a roçar pedra, porque o Catolé não tem terra, tem pedra, agora estão em uma escola feita a pau-a-pique, ensinados por uma professora que mal concluiu o primário;
- Seu João, que colocou os meninos todos na escola como bom cidadão, ganha X por cabeça, só por “estudarem”. E descobre que bom mesmo é ter menino, agricultura é a maior furada, ainda mais quando se tenta plantar na pedra. Embucha Dona Maria, que já até esqueceu o que é menstruar, uma vez por ano, só para manter o legado;
- Os meninos não aprendem coisa nenhuma, porque a escola está ali só para constar de estatísticas de governo. E seu João agora é mais um reprodutor oficial da república, responsável por lindas estatísticas educacionais que mostram, por A mais B, que todas as crianças estão na escola;
Resultado: a “boa intenção” do governo acabou com a agricultura, parca, mas almejada, e não deu educação nenhuma para ninguém. Tudo em nome de estatísticas e da criação de massa de manobra em eleição.














