Credibilidade de autor e de veículo

veiculos.jpgPost recente do Techbits entitulado “Blogs: mídia e credibilidade“, escrito pelo Alexandre Fujita, suscita um debate pertinente: por que os blogs não tem credibilidade para a mídia tradicional? Define-se por “mídia tradicional” todos os veículos de comunicação atrelados a empresas com tradição na produção e distribuição de informações - como as da imagem ao lado.

Como ilustração para o texto, Alexandre usa alguns exemplos, como a Bia Kunze e o furo no caso Cicarelli, quando ela não foi creditada por cavar a notícia, e a matéria deste mês da Super-Interessante, “Lost, e o fim da TV”.

Não existe uma receita de credibilidade, não é algo que se encontre na esquina e não são os caçadores de conteúdo que determinam quem tem ou não 1, não existe auto-determinação. Não é o G1 que diz que o G1 tem credibilidade, mas a sua grande massa de leitores. Esse valor é atribuído por outros, nunca pelos próprios produtores.

Embora sem receita, existem características compatilhadas por meios confiáveis: o esforço de procurar a informação mais precisa, atual e objetiva, sempre ouvindo os vários lados e pontos de vista envolvidos é elementar; e tempo de estrada, que é o que define “tradição”. Isso significa que você, jovem jornalista ou blogueiro criterioso, pode ser o mais cuidadoso possível com tudo o que é publicado no seu blog/jornal/revista/televisão, mas você sempre terá menos credibilidade que alguém com 40 anos de batente. E que você nunca terá 40 anos de batente se não for cuidadoso com tudo o que publica 2.

O grande desafio para os blogueiros é a cultura brasileira de que credibilidade boa é credibilidade institucionalizada. Existe na mentalidade do espectador/leitor a idéia subjacente de que se Fulano de Tal está no G1, ou no Uol, ou no Terra isso significa, necessariamente, que ele mereça alguma confiança. Claro que a institucionalização não pode deixar de ser um indício da seriedade de alguém, mas a não institucionalização jamais deveria ser um empecilho 3. A batalha contra a dicotomia que impõe como regra que um jornalista deve preservar seu nome mas que, ao mesmo tempo, esse nome só tem valor quando associado a um grupo de comunicação é a mesma dos blogueiros, jornalistas ou não. É livrar-se do princípio que classifica a informação por marca, não por qualidades inerentes ao próprio trabalho de apuração.

Para resumir, blogueiros devem ter três itens mantidos em foco:

  1. Cuidado, o conteúdo que você publica é essencial para a construção de confiança. Isso é tão óbvio que fico me pergunto se merece ser citado;
  2. Paciência: tempo é importantíssimo para que as pessoas observem o seu trabalho;
  3. Seja mais paciente: existe uma ruptura cultural em progresso e você está no centro dela. Ainda vai demorar muito até que um grande número de leitores confie em blogs, confiança que será sistematicamente minada pelos próprios blogueiros. Entenda - e isso é apenas uma observação da realidade, não uma defesa -, para o leitor comum, popular, médio, ou seja, a grande maioria, blog é tudo blog, uma informação errada em um contamina todos os outros. A mudança dessa realidade indesejada não está nas mãos da internet, com o fim dos blogs ruins ou o isolamento das ovelhas-negra da blogosfera, o desafio é sistêmico, é educacional e global, afeta todo e qualquer aspecto da vida, sejam blogs ou mecânica de automóveis - a estupidez é um produto em expansão. E quanto aos grandes meios… bom, eles não aceitarão por mais tempo que os leitores, não por burrice, mas por ser inadimissível reconhecer uma estrutura que mina sua própria lógica de lucro. Os blogs aceitos pelo mass media serão apenas aqueles com marca de mass media.

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  1. no processo de apuração de uma pauta, todo repórter/editor escolhe a fonte certa para falar de um determinado assunto. O bom senso e o senso comum proíbem, por exemplo, que se dê voz a um paranormal quando o tema é física nuclear. Nesse momento, existe uma determinação da empresa sobre quem tem credibilidade em cada caso. A regra é simples, tem credibilidade quem a sociedade em forma de grupos de base, comunidades, sindicatos, categorias profissionais, etc. delegou autoridade. []
  2. isso é uma falácia, existe sim gente com 40 anos de batente sem credibilidade nenhuma. Acredito que esse tipo de excrescência esteja diretamente ligada ao cenário, quanto menos gente com critérios suficientemente elevados para avaliar e condenar comportamentos duvidosos, maior a margem de ação para os picaretas. []
  3. ser empregado de um grande veículo pode ser um indício ruim. Significa, no mínimo, que o profissional é condescendente com as regras e linha editorial de onde trabalha. []

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