Notícias silenciadas pela mídia

2006 Setembro 10

Thomas Kostigen, do MarketWatch, escreveu na última sexta-feira, 8 de setembro, um artigo entitulado “Ten big news stories you aren’t hearing“, em que lista fatos de suma importância que os leitores norte-americanos não estão vendo no que ele chama de mídia tradicional.

Algumas notícias citadas têm importância exclusivamente doméstica, portanto, separo aqui as que de alguma forma afetam ou podem afetar o mundo inteiro, seja direta ou indiretamente.

A Comissão Federal de Comunicações e a mídia silenciam o debate sobre a liberdade na Internet

A Suprema Corte determinou que as grandes companhias de cabo não são obrigadas a dividir seus fios com outros provedores de serviço de Internet. A questão tem sido tratada de forma errada como um argumento sobre regulamentação, quando na verdade é um caso da Comissão Federal de Comunicações e o Congresso conversando sobre a liberdade das companhias telef�nicas e de cabo de controlar a demanda e o conte�do - uma decis�o com favoritismos e que for�ar� os consumidores a pagar por informa��es e servi�os que hoje s�o gratuitos.

O debate, embora distante da realidade brasileira - que ainda est� na fase do respeito ou n�o das cl�usulas de privacidade e que, na verdade, n�o tem absolutamente nenhuma regulamenta��o em torno de comunica��o eletr�nica - pode afetar de forma consider�vel a Internet por aqui, assim como no resto do mundo. A internet � essencialmente norte-americana em infra-estrutura - s�o poucas as m�quinas que controlam n�s de distribui��o fora de seu territ�rio - e uma decis�o no sentido dessa cobran�a vai sim deixar a internet muito diferente do que ela � hoje.

Halliburton processada por vender tecnologia nuclear ao Ir�

A Halliburton, uma das grandes companhias de energia dos EUA, vendeu componentes-chave de reatores nucleares para uma empresa privada iraniana de �leo chamada Oriental Oil Kish, em 2005, utilizando-se de subsidi�rias offshore para driblar as san��es norte-americanas. A hist�ria � particularmente interessante porque o Vice-Presidente Dick Cheney, que agora alega querer evitar que o Ir� obtenha armas nucleares, foi presidente da Halliburton nos meados dos anos 90, em uma �poca que, possivelmente, defendeu acordos com o Ir�, violando leis dos EUA.

A velha lenga-lenga que todo mundo j� sabe menos o p�blico americano (ao que parece): a guerra � um grande neg�cio e alimenta uma grande fatia da economia americana e que nada � humanit�rio como oficialmente se alega. Como afeta os �ndios daqui? N�o d� para dormir tranq�ilo com essa turma de loucos fabricando, transportado e negociando armas nucleares com qualquer comprador.

Os oceanos correm s�rio risco

Os governos t�m negado o aquecimento global ao mesmo tempo em que correm para mapear o solo oce�nico na esperan�a de conseguir direitos de explora��o de petr�leo, g�s, ouro, diamantes, cobre, zinco e os �ltimos campos virgens de pesca. Pesquisadores do instituto de oceonografia ligado ao Laborat�rio Nacional Lawrence Livermore, encontraram, em 2005, “a primeira evid�ncia clara de que os oceanos do mundo est�o ficando mais quentes”, incluindo a descoberta de que “a meia-milha da superf�cie dos oceanos aqueceu drasticamente nos �ltimos 40 anos, como resultado direto da a��o do homem de indu��o do efeito estufa”.

Sem querer soar alarmista ou talvez ir�nico, mas quem vive nos litorais deve come�ar a pensar no futuro.

Genoc�do high-tech no Congo

Se voc� acredita na m�dia corporativa, ent�o o genoc�dio em andamento na Rep�blica Demogr�tica do Congo (antigo Zaire) � apenas um caso de guerra tribal das feias. Mas esta � uma explica��o simplista e superficial que falha em ligar um sofrimento t�o terr�vel com as imensas fortunas que nascem da manufatura de telefones celulares, computadores e outros equipamentos de alta-tecnologia.

O que realmente est� em pauta neste banho de sangue � o controle de recursos naturais como diamantes, estanho e cobre, assim como cobalto - essencial para a ind�stria nuclear, qu�mica, aero-espacial e b�lica -, al�m de carv�o mineral e ni�bio, mais importantes para as ind�strias de alta-tecnologia.

Por volta de 1995/96, o Zaire, hoje Congo, estava em plena guerra civil entre duas for�as opostas majorit�rias: o ent�o ditador por mais de 40 anos Mobutu Sese Seko e Laurent-D�sir� Kabila, l�der da mil�cia revolucion�ria. Durante a insurg�ncia de Kabila, que ficou conhecida com a primeira guerra do Congo, eram freq��ntes as visitas de senadores e representandes de diversas ind�strias americanas para demonstrar apoio ao grupo de Kabila e n�o ao governo de Mobutu. Mobutu foi deposto e morto em 1997 pelo golpe de estado de Kabila. Kabila foi assassinado em 2001 por um membro de sua pr�pria equipe. A guerra financiada pelos interesses econ�micos norte-americanos perdura.

Embora a preocupa��o da maioria seja essencialmente humanit�ria, o genoc�dio high-tech no Congo � o que produz parte da mat�ria-prima para as armas que a Halliburton vender� aos iranianos, que, por sua vez, em breve ser�o atacados em nome da democracia pelos americanos.

O Banco Mundial financia o muro entre Israel e a Palestina

Em 2004, a Corte Internacional de Justi�a decretou que o muro constru�do por Israel em territ�rio Palestino deveria ser derrubado. Aconteceu outra coisa, a constru��o da barreira, que anexa col�nias israelenses e quebra a continuidade do territ�rio palestino, foi acelerada. No �nterim, o Banco Mundial apareceu com a proposta de uma �rea de livre com�rcio no Oriente M�dio, a ser financiada pelo pr�prio Banco Mundial e constru�da no solo Palestino a redor do muro, para encorajar o desenvolvimento com uma pol�tica de exporta��es.

Mas com Israel ineleg�vel para empr�stimos, o plano parece ter se traduzido no pagamento, pelos palestinos, da moderniza��o de postos de controle ao redor de um muro ao qual eles sempre se opuseram, um muro que ajudar� a mant�-los presos e na explora��o de seu trabalho.

Isso me lembra a II Guerra Mundial, em que as riquezas das fam�lias judias financiaram a loucura nazista e o genoc�dio de milh�es de judeus. N�o vejo crueldade maior que a v�tima que financia o pr�prio exterm�nio. Hitler, no final das contas, pode ter raz�o em pelo menos uma de suas frases, o Reich durar� mil anos.

Realmente sugiro a leitura completa do artigo de Kostigen no MarketWatch para um aprofundamento. Todas as afirma��es feitas s�o baseadas em alguns estudos citados pelo autor e que tamb�m merecem uma olhada. As fontes relativas aos itens que separei neste post s�o as seguintes:

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