Superman e a nova mitologia
Super-Homem, o Retorno, é um filme muito bom. Tem lá suas imperfeições, protagozinadas pelos efeitos especiais tão adorados pela garotada, mas que eventualmente não convencem. Me refiro àquele jeitão de vídeo game que os personagens adquirem, recurso muito usado nas seqüências de Matrix, em que é gritante a presença do píxel. Por algum motivo os diretores insistem nisso. Talvez por preguiça, já que hoje não é tão difícil fazer, ou porque, de alguma forma, eles ainda consigam deixar a maioria de boca aberta. Espero uma nova fase nessa área, a ilusão já não ilude mais.
De qualquer forma, é um filmaço. Dentre a adaptações de histórias em quadrinhos que apareceram nos últimos dez anos, o Retorno é, de longe, a que mais respeita os fãs antigos, a mitologia do personagem e mantém a aura de magia para as gerações mais novas.
Brandon Routh faz referências claras a Christopher Reeve quando disfarçado de Clark Kent, deixa um certo ar de homenagem. Kevin Spacey, como não poderia deixar de ser, está perfeito na calvície e na maldade de Lex Luthor, assim como Gene Hackman também esteve nas produções dos anos 70/80, mas com a atualização necessária para a época. O Luthor de Spacey é devidamente menos ingênuo e mais cruel. Lois Lane, interpretada por Kate Borsworth, é muito menos que a Lane de Margot Kidder, bem mais comportada como repórter do Planeta Diário e mais politicamente correta.
A grande qualidade do filme é a memória afetiva que o diretor Brian Singer retoma ao ressuscitar Marlon Brando em trechos de arquivo. Reconheço, sempre fui fã de Brando e não posso deixar de reconhecer também a emoção que foi ouví-lo e vê-lo novamente, depois da morte em 2004. O Jor-El, figura paterna por excelência, interpretado por Brando, retoma 20 anos de ausência do Super-Homem de forma magistral. Ainda neste aspecto, a execução do tema de John Williams é de tirar o fôlego. Singer foi muito mais feliz em recorrer à memória do que na criação de um Super-Homem pixelado.
Há, no entanto, algo bem diferente do que foi feito antes - excluindo do conjunto Superman III e IV, que são patéticos (embora mereçam o título de grandes filmes trash). Além das boas atuações e do respeito afetivo ao personagem, em nenhuma outra versão se citou tanto e de formas tão diversas a mitologia grega como mecanismo de afirmação de uma nova mitologia. A mais óbvia é a referência a Atlas, o Titã grego condenado por Zeus a segurar pela eternidade a Terra sobre os ombros (vide as duas imagens neste artigo), quando Super-Homem segura sobre os ombros o globo do Planeta Diário.
Para os gregos antigos, Atlas, com outros Titãs, rebela-se contra o Olimpo e deflagra a Titanomaquia, uma guerra que mudaria o cenário da humanidade e os modelos divinos para sempre.
Um dos irmãos de Atlas é Prometeu, citado por Lex Luthor como ideal de deus por simpatizar com a humanidade ao transmitir-lhe o conhecimento do fogo. Mas Prometeu, na Titanomaquia, é um traidor dos Titãs, já que alia-se aos humanos ao dar-lhes tecnologia. Depois da derrota, os Titãs são condenados por Zeus: Atlas a ser pilar do globo e Prometeu a ter o fígado eternamente comido por uma águia.
Nas citações do filme Superman está para Atlas assim como Lex Luthor está para Prometeu, ou seja, Superman estaria para um deus apocalíptico e não um salvador, assim como Luthor estaria para um iluminador, como foi Prometeu. O que não é bem o caso.
É neste ponto que o filme é ou historicamente errado, semioticamente incoerente, intencionalmente quer transmitir uma ética diferente da defendida pelos gregos ou simplesmente os caras só queriam uma iconografia. No fundo, acredito que a intenção é criar uma mitologia essencialmente norte-americana e não há nada mais norte-americano que o Super-Homem (talvez só o Capitão América). É um filmaço e uma propaganda ideológica de primeira, já que todos vão amar e ninguém vai perceber o estrago.














