De novo, o Código da Vinci
A grande pergunta não é se as teorias expostas por Dan Brown no Código da Vinci são verdadeiras ou não, mas por que elas ecoaram no mundo inteiro como sucesso popular só agora. O que mudou na cabeça das pessoas para que um livro, com idéias não tão novas como a maioria acredita, fosse elevado à categoria de maior best seller da história?
O mérito da questão de se Jesus foi ou não um mortal, se teve ou não uma família e descendentes, me soa mais como uma máscara (ou uma pista, para ficar no clima da livro), que leva a outras perguntas bem mais profundas. O diabo é que o debate fica entre dois polos: céticos e religiosos, em um embate que sempre cai na mesmice da validade da fé, como se a hipótese de um Jesus loiro e manco anulasse todo o choro e sangue derramado em Seu nome.
O que ambos os polos devem, mais cedo ou mais tarde, entender, é que fé existe, seja em Jesus, ou em si mesmo, ou na ciência, ou na astrologia, ou nos deuses do candomblé. O homem é um animal de fé, como é de amor, ódio, ciúmes, inveja, solidariedade, ânsia de poder… Uns terão mais, outros terão menos. Assim como alguns sentem mais ou menos amor, assim como existe gente mais ou menos solidária, assim como têm aqueles que não tem apego obsessivo por outra pessoa a ponto de matá-la em um acesso de ciúme. É da natureza da raça, é vital como comer. É o que a move rumo ao futuro, às cegas, sem saber se depois do próximo passo tem ou não um abismo.
A discussão nunca foi (ou pelo menos nunca deveria ter sido) sobre esta força que move rebanhos em torno de um dogma, mas os mecanismos que os dogmas criaram para dominar esta força e criar rebanhos. Porque não é a fé que os cria, mas uma série de idéias estruturadas e promessas que afirmam que só através dela, e apenas através de um tipo específico dela, é que se alcançará a salvação.
Outra pergunta que cabe no debate, no ponto mais restrito dele em que se toca no fenômeno cultural em que se tornou o livro de Dan Brown, é porque, de um século para outro, uma idéia até então pouco ouvida, de repente toma ares de novo dogma a ponto de ameaçar a crença vigente de um grupo.
As duas perguntas, a primeira em torno dos mecanismos que geram fiéis e a segunda sobre o que está por trás de uma idéia relativamente antiga de repente ecoar com a força desta, estão intrisicamente ligadas por um elo: o medo da morte.














