O princípio do prazer e o princípio da realidade
Na vasta obra de Freud que culminou na criação da psicanálise, dois termos fundamentais para o entendimento da psiqué humana foram cunhados: o princípio do prazer e o princípio da realidade.
O princípio do prazer descreve a natureza humana de fugir da dor e buscar o conforto, o prazer. Ele é mais forte nas crianças, no período da vida do homem em que somos essencialmente Id, em nossa natureza mais primal, mais básica, em que nossos desejos não passam por filtros culturais ou sociais. Esse princípio, embora mais comum nas crianças, permanece na nossa estrutura psíquica por toda a vida.
O princípio da realidade faz surgir o Superego, com os filtros estabelecidos pela convivência com outros humanos, pelas leis morais e religiosas e pela ética de uma cultura. O Ego, ou que nós somos quando saímos de casa e enfrentamos o mundo, o que transparecemos no dia-a-dia, reflete o eterno conflito entre esses dois princípios. Uma parte de nós deseja, outra suprime e o Ego produz nossa máscara social.
No Brasil político, nas nossas câmaras seladas, nas nossas casas legislativas, nos corredores do Executivo, sob as mantas judiciárias, nas nossas leis tão repletas de excessões para beneficiar o poder, na elite dos shoppings e das marcas caras, no nosso desejo de um hexacampeonato no futebol, nas televisões de plasma de R$ 9 mil, sonhos de consumo perpetuados em um capitalismo primal, básico, reside nosso princípio de prazer. Nossos doleiros enviam bilhões para paraísos fiscais sem que nenhum superego filtre a força motriz do desejo. Nossos políticos aumentam os próprios salários sem nenhum filtro ético. Nossos conchavos, nossas alianças ilícitas, nossos perpetuadores de miséria e violência não respeitam nenhuma convivência com outros humanos além daqueles que lhes são iguais, semelhantes na calhordice. Encastelados, como elite, nas redomas de vidro que supostamente nos protegem, podemos dar curso, com a voz amoral da hipocrisia, a nosso princípio do prazer.
Nas ruas, naquelas prisões que abrigam assassinos cultos (como dizem ser o Marcola, líder do PCC), no tráfico e no poder do tráfico na realidade das favelas, dos guetos e das fronteiras; na fome que é realidade de tantos pais e filhos, na falta de rumo, na concentração de renda que impede uma democracia plena, na falta de educação (que também é uma negação da democracia), na morte prematura de crianças por subnutrição, no dia-a-dia e na alma de qualquer desamparado deste País, está nosso princípio de realidade.
A invasão do Movimento para a Libertação dos Sem-Terra à Câmara dos Deputados nesta fatídica terça-feira, nada mais é que a melhor expressão de nosso Ego secular. Um Ego invertido, que luta entre duas forças que estão nos campos errados, em que o poder institucional é puro desejo e em que a multidão de miseráveis é rédea.














