O Titulador de Dicionários

2004 Julho 12
by Leonardo Fontes

Talvez o mérito de uma luz que incida sobre os dedos daquele que escreve seja meramente casual, como os dedos que incidem sobre o papel possam também ser casuais, assim como o que é escrito é desprovido de qualquer mérito que fuja ao casual. Mas se por um segundo essa mesma luz desvia-se, os dedos deverão cair no vazio absoluto sem jamais ter a segunda chance da redenção, assim como o papel caso os dedos desviem-se, pois o que está escrito está tão próximo de ser a queda eterna no vazio, a ausência da redenção, como distante pode estar a alma daquele que escreve.

Nas ordens-escola dos antigos dicionaristas, certas matérias de aprendizado (assim como o é hoje nos campos do conhecimento aos quais dedicamos nosso árduo trabalho) não tinham aquele sentido prático que, diria-se, fazia o mundo progredir, no eterno continuar giratório em torno de seu próprio eixo, mantendo-se, portanto, a ordem prevista por aqueles que ensinam. O limite imposto do método podia ser tão tênue quanto intransponível, já que este método tinha a ortodoxia clássica dos dogmas engendrados pela imaginação humana, senão pelo desejo do inútil.

Das salas, dos pátios, dos vãos inabitados que perenizavam-se por trás dos imensos muros da Academia, um pescador que descansasse a paciência nas margens do Rio podia ouvir um murmúrio de vozes tão confuso como o correr da água sobre a Planície. Saber o que ali era debatido e recriado a cada sermão seria tão misterioso como advinhar, por trás do movimento do rio, a mão que o fazia fluir para sempre, adaptando-se aos obstáculos ou removendo-os. E descobrir essa divindade seria permitido apenas para aqueles que conhecessem o que há além dos muros; o que há além da água, do leito e do pescador.

José sabia. José Cirino, recém liberto da clausura acadêmica, de porte nobre embora aparvalhado com as mãos, sabia. Dos prados que escondiam com o horizonte as trilhas para a escola de dicionaristas, Cirino sabia pouco, do rio e das águas apenas os sons e o cheiro tênue, mas tinha ainda as mesmas roupas que durante quatro anos lhe serviram por trás dos muros, até o dia da expulsão. Nos autos consta conduta imprópria, na memória dos que ficaram ficou o resquício de uma dúvida, de uma suspeita de atos não discutíveis, de hábitos adversos a um celibatário. Foi a queda de um anjo, de um imortal que se transformava em morto. Mas Cirino, como todos os homens que trazem no sangue a complexidade histórica do sangue de todos homens da Planície, sobreviveu. Conheceu os caminhos escondidos pelo horizonte, mas não olhou para o rio.

Voltou para a casa dos pais desonrado, foi aceito, embora mal. A vaidade não saciada dos pais, como em todas a culturas humanas, refletiu por todos os cantos da vizinhança. Mas isso são pequenas coisas, e Cirino era mais. Em suas mãos estava o destino inacabado, restava-lhe dilapidar um futuro. Rezou e trabalhou, afastou-se da casa que antes lhe pertencia e que agora estranhava a sua presença. Foi para longe, onde a influência da Academia fazia tão pouco sentido quanto importância. Prosseguiu até parar. Parou aqui, onde agora escreve este relato como a um diário. Pensou nas infâmias que viveu, viu nos inúmeros prédios um reflexo de cada vida, de todas as vidas, da vida reconstruindo-se em todas as janelas, nos portões, nesse líquido carnal dos corpos.

Sabia que por trás do mais alto prédio tinha uma pequena história, assim como aqui, neste mais próximo em que alguma criança chora de fome, de sede ou de desejo. Ou neste quarto, onde ficará para sempre até que um trabalho encomendado por uma pequena editora seja concluído. No mês anterior havia o “Pequeno Dicionário de Afinidades”, um breve volume sobre sinônimos. Tempo também do “Complexo Compêndio sobre as Atrocidades Literárias de São José da Coroa Grande”, não mais complexo, é verdade, que toda a literatura, fosse ela atroz ou não, produzida em São José da Coroa Grande. Livro por demais enfadonho, sofrível. Cirino sabia que sugerir o “Compêndio” como parte do próprio seria querer muito esforço do escritor. Deixou estar, titulou outro trabalho com o nome “Dicionário Biológico”, título simples, trabalho rápido. Bem mais trabalho teve quando lhe foi entregue um volume espesso sobre toda a história dos relógios fabricados e vendidos no mundo. Não conseguia ver a necessidade de um livro abordando um assunto tão prosaico como relógios, como o tempo. Mas ainda assim colocou-lhe o pomposo título “Enciclopédia Completa e Revisada dos Mais Variados Tipos de Hora Logi De e Para Todos os Tempos”. Título muito elogiado, aclamado pelos companheiros. Ficou satisfeito por ninguém entender a ironia.

Agora tinha em mãos um motivo mais sério para preocupação. Tinha na mesa vários tomos, ao que parece de pesquisa exaustiva, sobre a Academia. Proibida a publicação, o governo da Planície era muito zeloso com seus filhos institucionais; estava ali aquele trabalho feito por um dissidente. Com todos os nomes, com toda a história de cada aluno que por lá passou, com origens, desempenhos e destinos, além, claro, dos termos técnicos pertinentes à arte. Constava, também, vejam só, os nomes de todos aqueles que foram sumariamente expulsos e dos expulsos após o inquérito interno apropriado para cada caso. Na letra C, de Cirino, José, em boas letras, no final do verbete, “expulso por improbidade de conduta”. Estava completo o quadro, era só o que faltava, canalha de dissidente porco e imundo. Não contente em emporcalhar a própria vida agora emporcalhava a dos outros. Nada como a morte para alguém dessa estirpe.

Cirino repetiu impropérios dentro da noite, durante toda a noite, na manhã do dia que nascia, repetiria na tarde que adviria sobre seus ombros, até cansar-se, quem sabe, na noite seguinte, quando seria necessário dormir para juntar forças, esquartejar o cadáver, separar os pedaços em pequenas caixas, limpar os lençóis sujos de sêmen e sangue, queimar os volumes para depois, talvez, tomar um café da manhã fausto em frutas e lacticínios.

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